Esta noite haverá mais uma refeição das pessoas na sala de jantar. Como rezava a canção “Panis et Circenses”
“Mandei fazer
De puro aço luminoso, um punhal
Para matar o meu amor, e matei
Às cinco horas na Avenida Central
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e em morrer”.
No computador, abro um velho mapa mental no programa Curio, onde armazenei todos os absurdos cometidos pelas pessoas na sala de jantar.
A imagem que me veio à mente foi a do procurador com ar tranquilo, fotografado em seu gabinete com o retrato dos filhos na estante. Imaginei-o chegando em casa depois do expediente, tomando um banho quente, vestindo seu roupão. Depois, senta-se no sofá, liga a TV no Jornal Nacional e se dirige ao filho:
– Filhinho, está vendo aquela pessoa que se atirou do último andar do Shopping? Era um ex-reitor da UFSC. Foi o papai que conseguiu!
Nem no período mais bárbaro da ditadura testemunhei um clima similar ao que acometeu o país na longa noite da Lava Jato até o impeachment de Dilma. A maldade estava no ar de forma tão intensa que podia ser cortada por golpes de navalha.
A ditadura tinha os porões. Do nível da rua para cima, porém, nem a ditadura conseguiu se equiparar a esses anos tenebrosos. O bafo quente dos abusos se espalhava por todos os ambientes. O mapa da mente estava lá, como registro solitário e calado desses tempos de horror.
Ou então quando, a pedido do ministro da Educação Mendonça Filho, a AGU, o TCU e o MPF passaram a investigar a disciplina optativa da UnB, “O golpe de 2016 e o futuro da democracia”, do professor Luis Felipe Miguel, chegando a levantar a hipótese de improbidade.
Em Florianópolis, a Polícia Federal invadia o campus e levava preso o ex-reitor Cancellier e vários professores, por acusações que se revelaram falsas. E, em Belo Horizonte, foi preciso que a comunidade universitária se mobilizasse no campus da Universidade Federal de Minas Gerais para impedir a prisão do reitor e de professores pela Polícia Federal.
Ao mesmo tempo, o desgosto levava à morte um reitor da UFRJ, após uma série de acusações infundadas sobre a contratação de uma empresa para os coquetéis da universidade.
Apoiados pela imprensa, os terraplanistas saíram das catacumbas e cometeram toda sorte de atentados à ciência, como intimar um professor emérito a depor apenas por ter participado de um seminário sobre os poderes medicinais da cannabis.
Ainda no Sul, o desembargador Favretto, de plantão, ordenou a soltura de Lula, mas dois colegas, Thompson Flores e Gebran Neto, atropelaram todos os procedimentos para desautorizá-lo.
Enquanto isso, em São Paulo, um delegado da Polícia Civil invadia a casa de um dos filhos de Lula, em um condomínio, com base em uma denúncia anônima, e uma brigada invadia a Escola Florestan Fernandes, assustando crianças, mulheres e idosos.
E, nas eleições de 2018, um grupo de presidentes de Tribunais Regionais Eleitorais, articulados em um grupo de WhatsApp, ordenou que a Polícia Militar invadisse diversas universidades federais para impedir manifestações de professores e alunos.
Em São Paulo, um jornalista denunciava uma professora de psicologia, septuagenária, por orientar uma tese sobre redução de danos com ecstasy, levando a Fapesp a cortar a bolsa da aluna.
Estudantes que ousaram protestar contra o impeachment, em São Paulo, foram alvos de um espião do Exército — em um comportamento indigno —, que se aproximou do grupo por meio de um aplicativo de namoro. Os rapazes foram denunciados criminalmente por um promotor inclemente e uma juíza cruel.
Um pouco antes, a pretexto de instalar uma escuta na Papuda, uma juíza autorizou uma rádio de escuta que abarcava até o Palácio do Planalto. Enquanto isso, um juiz corregedor sádico impedia que José Genoino, recém-saído de uma cirurgia cardíaca delicadíssima, pudesse se tratar em uma clínica.
E ganhavam manchetes os juízes que algemavam presos nas audiências de custódia para que não roubassem canetas.