Mais uma vez sem alternativas na chamada terceira via – consórcio que une mídia liberal, Centrão e Faria Lima -, a Globo, da família Marinho, retomou a dobradinha com o clã Bolsonaro e armou uma “investigação” própria contra Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, uma das principais apostas da campanha de Flávio Bolsonaro (PL) para tirar o foco da crise intermitente da campanha e tentar reverter o desempenho nas pesquisas, onde aparece atrás de Lula desde a revelação do elo de irmandade com Daniel Vorcaro.
“Uma delas é a empregada doméstica Zildeni Souza, que acompanhou a rotina na casa durante sete meses, entre 2024 e 2025”, diz a reportagem principal, intitulada “Mansão em Brasília era usada por lobista e Lulinha para reuniões”, expondo a identidade da trabalhadora.
A estratégia remete ao caso do caseiro Francenildo Costa durante as eleições de 2006. À época, os jornais turbinaram acusando o então ministro da Fazenda, Antônio Palocci, de quebrar o sigilo na Caixa Econômica Federal (CEF) do caseiro da chamada “casa do lobby”. Em 2009, o STF rejeitou, por 5 votos a 4, a denúncia contra o ex-ministro e seu assessor de imprensa por falta de provas.
A estratégia da Globo é a mesma: criar factóides para alimentar narrativas que possam ser propagadas pelos adversários de Lula durante a campanha eleitoral. Neste ano, o beneficiado é Flávio Bolsonaro.
Em outra reportagem, O Globo manobra para ligar o caso ao esquema de fraudes contra aposentados, que tem origem no governo Jair Bolsonaro e envolve Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS, que usava a mesma empresa de contabilidade, a Voga Serviços Contábeis, que o escritório de advocacia de Flávio Bolsonaro. Sócia administradora dos negócios de Flávio, Letícia Caetano é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, preso por ser acusado de atuar como operador de Antunes nas fraudes no INSS.
“Lobista postou foto em mansão usada para reuniões com Lulinha no dia de operação da PF sobre fraudes do INSS”, diz a chamada da reportagem, que resgata uma publicação de Roberta Luchsinger nas redes na casa em Brasília no mesmo dia em que foi alvo de uma operação da PF sobre as fraudes no INSS, que segue em investigação.
Em uma terceira reportagem, no entanto, O Globo busca incluir Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, em outro caso, que nunca foi adiante e, sequer, tem projeto no Ministério da Saúde, sobre uma suposta negociação para venda de produtos à base de cannabis ao SUS.
“Canabidiol, lobby e minuta de contrato: o que revelam as mensagens de Marcola e amiga de Lulinha”, diz o título da reportagem, remetendo ao termo que se popularizou durante as investigações sobre a tentativa de golpe de Jair Bolsonaro.
Por fim, o clã Marinho escalou a colunista Bela Megale, jornalista que tem credibilidade no meio, para dizer que a “Lobista amiga de Lulinha “abandona” mansão após pagar aluguel antecipado”. Em informação, que tem como fonte “o dono da casa” que “mora no exterior”, a jornalista diz ter informações que Roberta Luchsinger “não frequenta a mansão desde que foi alvo de buscas por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF)”.
“Segundo o empresário, a notícia que recebeu é que Roberta teria “abandonado” a casa, mas que funcionários estariam cuidando do imóvel. Ele afirma que a lobista frequentou a mansão poucos meses antes de ser alvo da Polícia Federal e disse desconhecer que o filho de Lula também se hospedava no local”, escreve bela Megale, contradizendo a versão apresentada pelos “três funcionários da casa”, ouvidos pelo jornal.
Pirotecnia e caso Francenildo
Para Marco Aurélio Carvalho, advogado de Fábio Luis e coordenador jurídico da campanha de Lula em São Paulo, a Globo faz “pirotecnia” com o caso com o único intuíto de ajudar Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair Bolsonaro (PL), que escrachou jornalistas da própria rede do clã Marinho durante seu mandato.
“É tática diversionista, pirotécnica, para tentar tirar os olhos do que é fundamental. Nós precisamos discutir um programa de governo para esse país poder continuar seguindo em frente que, se Deus quiser, seguirá em frente sob a liderança lúcida e firme do presidente Lula”, afirmou Marco Aurélio Carvalho à Fórum – leia entrevista exclusiva em instantes.
Vinte anos depois, a Globo comanda a mídia liberal em uma reedição do caso Francenildo Costa, que ganhou as manchetes com ataques a Lula em 2006.
À época, Costa afirmou à imprensa e depois à CPI dos Bingos que havia visto o então ministro da Fazenda Antonio Palocci na chamada “casa do lobby”, imóvel, como tantos outros, alugado para reuniões de lobistas com assessores de políticos em Brasília.
Dias depois, Costa teve seu sigilo bancário quebrado e dados de sua conta, com depósitos de cerca de R$ 35 mil, foram divulgados pela Globo e pelos jornalões da mídia liberal. A informação foi imediatamente transformada em munição política: a oposição e a terceira via, que então apostava suas fichas em Geraldo Alckmin – hoje vice presidente -, propagou que a quebra de sigilo teria partido do Ministério da Fazenda.
O escândalo derrubou Palocci, mas seu desfecho judicial é bem diferente da narrativa política construída naquele momento. Em 2009, o STF rejeitou, por 5 votos a 4, a denúncia contra o ex-ministro e seu assessor de imprensa por falta de provas.
Por outro lado, recebeu a acusação contra o então presidente da Caixa, Jorge Mattoso. Francenildo, por sua vez, teve reconhecido pela Justiça o direito à indenização pela violação de seu sigilo — a Caixa chegou a ser condenada a pagar R$ 500 mil, valor posteriormente reduzido para R$ 400 mil pelo TRF-1.
O episódio, explorado durante meses como símbolo dos “escândalos do governo Lula”, terminou sem condenação criminal de Palocci, bem depois de servir como munição eleitoral durante a campanha da mídia liberal contra Lula.