Como Milei e Trump ajudaram Flávio Bolsonaro a fugir do Brasil

Foto: RS/Fotos Públicas

Flávio deixou o Brasil na noite de 27 de outubro, acompanhado da mulher e das duas filhas. Depois de percorrer mais de 1,6 mil quilômetros por terra até a fronteira argentina, embarcou em um jato particular em Puerto Iguazú, fez escala no Equador e chegou a Miami.

A viagem ocorreu depois que autoridades brasileiras determinaram que o senador entregasse seus passaportes, no contexto de investigações criminais. Os documentos foram cancelados e um alerta migratório foi emitido para impedir sua saída do país.

Em entrevista de 75 minutos ao New York Times, publicada em 5 de novembro, Flávio negou ter recebido ajuda de governos ou autoridades estrangeiras. “Foi tudo eu”, afirmou. Questionado sobre como conseguiu chegar aos Estados Unidos, acrescentou: “Como cheguei aqui, vou levar para o túmulo”.

As informações reunidas pelos jornais, entretanto, apontam para uma operação articulada com participação de aliados estrangeiros.

Deslocamento terrestre e jatos particulares

Segundo o Clarín, o plano inicial previa que a família viajasse de Brasília até a região da tríplice fronteira em um jato particular. O proprietário da aeronave desistiu de cumprir o contrato depois que a imprensa divulgou que Flávio estava proibido de deixar o Brasil.

A operação também contou com pelo menos quatro jatos particulares, segundo o jornal argentino. O principal era um Gulfstream IV, de matrícula LV-JQW, pertencente à empresa Baires Fly. A aeronave saiu de Buenos Aires em 26 de outubro e aguardou em Puerto Iguazú até a madrugada de quarta-feira (28).

O proprietário da empresa, Luis Grande, confirmou ao New York Times que o avião havia sido alugado por um intermediário por US$ 150 mil. Outro jato, um Learjet 45, também esteve no aeroporto argentino e retornou a Buenos Aires horas antes da chegada da família.

Assessor de Milei teria coordenado embarque

Um dos principais personagens da operação é Santiago Caputo, assessor próximo do presidente argentino Javier Milei. Segundo o New York Times, Caputo percorreu cerca de 1.290 quilômetros desde Buenos Aires e chegou à região na noite de 26 de outubro. Três pessoas familiarizadas com a operação afirmaram que ele ajudou a coordenar a saída do senador, facilitando o processamento dos passaportes e a documentação do voo.

As mesmas fontes disseram que Caputo e seus assessores agilizaram os procedimentos alfandegários. Depois da decolagem, o assessor teria procurado um policial que gravava imagens da pista e ordenado que apagasse os vídeos. O Clarín também atribuiu a Milei a decisão de enviar Caputo à região para garantir o sucesso da operação.

Casa Branca organizou avião e Trump autorizou entrada

As reportagens do New York Times apontam que a participação dos Estados Unidos foi além da concessão de autorização migratória. Segundo autoridades norte-americanas ouvidas pelo jornal, Jason Miller, funcionário da área de Comunicação da Casa Branca e aliado da família Bolsonaro, organizou o jato particular utilizado na viagem.

O plano teria começado a ser colocado em prática na segunda-feira (26), depois que Flávio recebeu a determinação de entregar seus passaportes.

Segundo autoridades ouvidas pelo NYT, Flávio poderá solicitar residência permanente, conhecida como green card, e o processo poderá ser acelerado. A reportagem também identificou um registro público que sugere que o senador apresentou um passaporte diplomático brasileiro cancelado ao chegar aos Estados Unidos.

No Brasil, a Polícia Federal informou que não havia registro oficial da saída do senador e que investigaria as circunstâncias do descumprimento da ordem judicial. A corporação ressaltou, porém, que a restrição de viagem não significava necessariamente que Flávio fosse considerado foragido ou pudesse ser preso.

Na entrevista ao NYT, Flávio justificou a saída do Brasil alegando perseguição política e afirmou que sua prisão seria inevitável caso permanecesse no país. Ele não foi formalmente acusado de crime, mas é investigado em casos relacionados a lavagem de dinheiro e corrupção.

O senador também voltou a questionar o resultado eleitoral, alegando, sem apresentar provas, que a vitória de Lula seria fraudulenta. As autoridades eleitorais brasileiras rejeitaram as acusações, e observadores internacionais independentes atestaram a integridade do processo.

Mesmo nos Estados Unidos, Flávio pretende continuar atuando na política brasileira. Disse que buscará contestar judicialmente a vitória de Lula, embora reconheça que as chances de sucesso são pequenas. Também pretende apoiar aliados que defendem a anistia para o pai e os condenados pelos atos de 8 de janeiro de 2023.

A permanência de Flávio nos Estados Unidos pode ter consequências diplomáticas. Em análise publicada pelo Intercept Brasil, a situação é comparada à do general português António de Spínola, que fugiu para o Brasil após uma tentativa frustrada de golpe em Portugal, em 1975. O artigo avalia que o senador pode se tornar um instrumento de pressão de Trump sobre o governo brasileiro, inclusive em negociações comerciais.

Apesar das revelações, ainda não estão esclarecidos todos os detalhes sobre o financiamento da operação, a participação efetiva dos agentes estrangeiros e como Flávio conseguiu atravessar a fronteira brasileira depois do cancelamento de seus documentos.

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