A responsabilidade do eleitor pela desgraça do estado do Rio

Cláudio Castro foi o último da sequência de governadores do Rio investigados por corrupção - Foto: Antônio Cruz/Agência Brasil

Há uma espécie de tabu nas forças progressistas segundo o qual não se deve criticar as escolhas do eleitorado. É evidente que suas decisões são soberanas e seu acatamento é o pilar fundamental de qualquer regime que se pretenda democrático.

Como não sou, e jamais serei, candidato a nada, atrevo-me a meter a mão neste vespeiro..

É impossível não ver com perplexidade as seguidas opções dos eleitores do estado do Rio de Janeiro em relação aos ocupantes do Palácio Guanabara.

E pensar que o Rio outrora era visto como a caixa de ressonância do Brasil. Palco de acontecimentos políticos históricos e epicentro das lutas pela redemocratização do país, as convicções progressistas e democráticas da população fluminense acabaram virando pó ao longo do tempo.

Hoje o Rio é sinônimo de violência urbana fora de controle, de roubalheira de dinheiro público e de captura dos poderes pelo crime organizado.

Milicianos e quadrilhas de narcotraficantes não só dominam vastos territórios como dão as cartas na Assembleia Legislativa e até há pouco tempo no  Executivo do estado. A bandidagem também tem suas ramificações no Judiciário estadual.

De Garotinho e Rosinha a Cláudio Castro, passando por Sérgio Cabral, Pezão e Witzel, governadores investigados por corrupção, presos ou cassados, o estado foi descendo ladeira abaixo, não só pela ocupação permanente das páginas policiais, mas também por gestões, em geral, marcadas pela incompetência administrativa, violência policial contra os pobres e falta de sensibilidade social.

Neste caminho, teve até uma desastrosa intervenção federal, imposta pelo golpista Michel Temer, que só agravou a situação.

O Rio viu suas finanças serem arruinadas, sendo forçado a se submeter ao garrote do regime de recuperação fiscal, que bloqueia investimentos e inibe programas sociais.

Mas, por que os eleitores do Rio teimam em votar em candidatos cuja trajetória de vida são a garantia de que uma vez empossados serão seus algozes?

Por que votam nos seus carrascos?

Os motivos a explicar essa esquizofrenia coletiva são múltiplos e dariam uma tese acadêmica, que certamente não deixaria de fora o refluxo dos movimentos sociais e a omissão do conjunto da esquerda em relação ao trabalho de base e à presença junto ao povo.

Contudo, suspeito que o buraco seja mais embaixo.

Mesmo levando em conta que no Rio o fundamentalismo neopentecostal e o bolsonarismo são fortes, bem como as milícias e o narcotráfico, depois de tantas escolhas trágicas, será que é demais cobrar dos eleitores mais reponsabilidade no exercício do voto?

Penso que não.

Essa cobrança pode inclusive contribuir para o aprofundamento do debate a respeito da valorização do voto como instrumento de transformação social e afirmação da cidadania.

Isso não é elitismo, nem conduta arrogante e professoral.

É apenas uma das últimas chances de salvar o Rio.

 

 

 

 

 

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