Argentina: oposição cobra Milei por fuga de Flávio Bolsonaro

Javier Milei e Flávio Bolsonaro: após a derrota do senador para Lula, o governo argentino mobilizou Santiago Caputo para ajudar na fuga aos Estados Unidos. Foto: Reprodução

Deputados de diferentes blocos da oposição argentina unificaram a cobrança por explicações do governo Javier Milei sobre a fuga de Flávio Bolsonaro e exigiram que a Argentina reconheça a vitória de Lula.

Em uma declaração conjunta enviada ao presidente da Câmara, Martín Menem, os parlamentares pediram respostas aos requerimentos de informação e a convocação de três integrantes do governo.

São eles o chefe de Gabinete, Diego Santilli; o chanceler Pablo Quirno; e a ministra da Segurança, Alejandra Monteoliva, responsável pela área de Migrações.

A convocação formal — chamada de interpelação na Argentina — obriga os ministros a responderem às perguntas dos deputados sobre a atuação do governo na saída de Flávio.

A oposição também quer que Milei reconheça oficialmente a vitória de Lula e retome o diálogo com o Brasil. Desde a eleição de domingo (25), o governo argentino se limitou a dizer que “tomou nota” do resultado, sem parabenizar o presidente reeleito.

A Argentina é o único país da América do Sul que ainda não reconheceu formalmente a vitória.

O ex-ministro da Defesa Agustín Rossi pediu a convocação de Santilli para que explique a saída de Flávio e identifique os funcionários envolvidos.

“Ele terá de responder e prestar contas ao Congresso pela atuação de diferentes áreas do governo. Um país que se presta a driblar a Justiça e as autoridades de outro país não é confiável. O Brasil, além disso, é um país irmão. A Argentina não pode ser a rota de fuga de ninguém”, afirmou.

O deputado Pablo Juliano, do bloco Provincias Unidas, apresentou um pedido de convocação de Quirno com 91 perguntas. Ele quer saber se o território argentino foi usado para facilitar a saída internacional de uma pessoa submetida a restrições judiciais no Brasil.

Esteban Paulón, deputado socialista, apresentou uma denúncia criminal por encobrimento agravado contra Milei, Quirno, Monteoliva e Santiago Caputo, assessor presidencial.

Também pediu que seja investigado quem pagou o avião privado usado por Flávio. A aeronave pertence à Baires Fly, empresa citada em uma investigação sobre propinas em contratos da Agência Nacional de Pessoas com Deficiência (ANDIS).

A deputada Marcela Pagano levou outra denúncia à Justiça Federal de Puerto Iguazú. Ela pediu que sejam investigadas a entrada clandestina de Flávio, a facilitação de sua permanência no país, o abuso de autoridade, o descumprimento dos deveres de funcionários públicos e o encobrimento.

Também solicitou a preservação das imagens de segurança da Ponte Internacional Tancredo Neves, do aeroporto e de pontos da cidade entre a noite de segunda-feira (26) e a manhã de quarta (28).

Santilli prometeu comparecer ao Senado em 18 de novembro para apresentar seu relatório de gestão. A oposição quer que ele preste esclarecimentos sobre a fuga antes disso. A data prevista para a apresentação deixa a crise diplomática com o Brasil aberta por mais três semanas.

A operação de Milei

Flávio deixou o Brasil com a família na terça-feira (27), depois de perder a eleição para Lula.

O Supremo Tribunal Federal havia determinado que entregasse seus passaportes, mas ele não cumpriu a ordem. Flávio cruzou a fronteira terrestre usando passaporte italiano e embarcou em um avião privado em Puerto Iguazú.

O plano de voo indicava Guayaquil, no Equador; de lá, a aeronave seguiu para Miami.

A operação foi conduzida por Caputo, principal assessor político de Milei, por ordem do presidente e em articulação com o trumpismo. Caputo mobilizou a Secretaria de Inteligência do Estado (SIDE), a agência de inteligência argentina, e coordenou os preparativos para a saída do senador.

A Casa Rosada respaldou sua atuação e afirmou que a operação ocorreu dentro da lei.

A ação também teve uma frente nas redes sociais. Perfis ligados ao governo argentino difundiram a narrativa de que Lula seria um ditador e Flávio, vítima de perseguição. Enquanto isso, contas ligadas ao trumpismo divulgaram falsamente que o senador já havia chegado aos Estados Unidos enquanto ele ainda viajava por terra rumo a Foz do Iguaçu.

A operação chegou a provocar atritos dentro do governo. Monteoliva se queixou da interferência da SIDE, e integrantes da Gendarmaria e da Polícia Federal argentina reclamaram por não terem sido avisados. A ministra e os órgãos de segurança ficaram de fora de uma ação coordenada pelo assessor presidencial.

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