O presidente cubano Miguel Díaz-Canel afirmou nesta segunda-feira (10) que “o legado de Fidel nos interpela hoje com mais força que nunca”, ao proferir a conferência de abertura do 1º Colóquio Internacional Fidel: Legado e Futuro, no Palácio de Convenções de Havana. O encontro reúne acadêmicos, intelectuais, artistas, líderes sociais e políticos dos cinco continentes na semana que antecede o centenário de nascimento de Fidel Castro, comemorado em 13 de agosto. O ano de 2026 foi declarado em Cuba “Ano do Centenário do Comandante-em-Chefe Fidel Castro Ruz”.
Díaz-Canel agradeceu a presença dos delegados internacionais, classificando-a como “um ato de valentia e coerência”, diante do que descreveu como campanhas de desinformação e pressões de governos estrangeiros. “Vir a Cuba hoje, em meio do recrudescimento do bloqueio e da hostilidade imperial, é um gesto de solidariedade militante que honra o legado de Fidel”, declarou.
O colóquio prossegue durante a semana com mesas-redondas, painéis e atividades culturais, culminando no dia 13 de agosto, data do centenário de nascimento de Fidel Castro Ruz (1926-2016).
Um legado como método, não como receita
Ao longo de mais de uma hora de discurso, Díaz-Canel evitou o tom de conferência acadêmica e propôs uma reflexão pessoal sobre a figura do líder da Revolução Cubana. “Fidel não deixou receitas; deixou um método. E esse método nasceu da práxis, não apenas das bibliotecas”, afirmou.
Entre os legados que enumerou, o presidente destacou a “coerência ética”, a “audácia intelectual”, o internacionalismo, o otimismo revolucionário e a concepção de soberania como “processo que se conquista e se defende em múltiplas frentes simultaneamente”. Citou a fórmula de Fidel segundo a qual “não há economia sem política, nem política sem economia” como contribuição metodológica central para os movimentos de transformação social.
O dirigente cubano recordou ainda o papel de Fidel na integração latino-americana ao lado de Hugo Chávez, com iniciativas como a Escola Latino-Americana de Medicina, a Operação Milagro, o programa de alfabetização “Yo sí puedo” e o Contingente Internacionalista Henry Reeve, que enviou mais de 600 mil profissionais de saúde a 165 países.
Denúncia do bloqueio e da ofensiva dos Estados Unidos
A parte mais extensa do discurso foi dedicada à denúncia do que Díaz-Canel qualificou como “ato de guerra não declarada” contra Cuba. O presidente informou que Washington intensificou medidas extraterritoriais de bloqueio, manteve a ilha na lista de Estados patrocinadores do terrorismo e, segundo ele, destinou milhões de dólares a operações de subversão por meio de redes sociais, ONGs e plataformas digitais.
Díaz-Canel mencionou revelações recentes da imprensa norte-americana sobre um suposto aumento de operações da CIA em Cuba e citou declarações do Secretário de Estado dos EUA de que as sanções “não farão mais que endurecer-se”. Para o presidente cubano, trata-se de “ameaça aberta de extermínio genocida a todo um povo”.
O dirigente referiu-se também a especialistas da ONU que, segundo ele, afirmaram que as medidas coercitivas unilaterais contra Cuba contrariam o Artigo 2 da Carta das Nações Unidas e conclamaram o Conselho de Segurança e a Assembleia Geral a tratar a questão como tema de paz e segurança internacionais.
Impactos concretos na saúde e na energia
Díaz-Canel apresentou dados sobre os efeitos do bloqueio em setores estratégicos. Na área energética, disse que 1.400 megawatts de capacidade instalada em usinas de geração distribuída estão paralisados por falta de combustível, o que estende os apagões a mais de 20 horas diárias.
Na saúde, elencou:
- 98.500 pacientes em lista de espera cirúrgica, dos quais 12 mil crianças;
- 34 mil gestantes sem acesso suficiente a ultrassonografias pré-natais;
- 67 mil menores de um ano sem esquema vacinal atualizado;
- 117 mil adultos e 1.200 crianças com câncer sem tratamentos primários adequados;
- apenas 30% do quadro básico de medicamentos disponível;
- mortalidade infantil que saltou de 4-5 para 9,8 por mil nascidos vivos.
“Não estamos aqui para negar essa realidade, mas para compreendê-la em sua justa dimensão e encontrar no pensamento de Fidel as chaves para transformá-la”, declarou.
Transformações econômicas sem renúncia ao socialismo
Ao abordar a resposta interna à crise, Díaz-Canel afirmou que Cuba implementa “um conjunto de transformações econômicas e sociais” que incluem a empresa estatal, a não estatal e outras formas de gestão. Enfatizou, contudo, que se trata de “dinamizar a economia, não instaurar o capitalismo”. “Não haverá privatização a ultrança; os meios fundamentais de produção continuam nas mãos do povo”, assegurou.
O presidente reiterou que o Partido Comunista de Cuba permanece como “força dirigente superior do Estado e da sociedade” e principal responsável pela condução do processo.
Convocação à solidariedade internacional e à juventude
Na parte final do discurso, Díaz-Canel convocou os participantes do colóquio a difundir “a verdade de Cuba”, articular redes de solidariedade concretas e aprofundar o pensamento crítico sobre “o socialismo do século XXI”. Dirigiu-se também à juventude cubana, citando Fidel: “Crer nos jovens é ver neles, além de entusiasmo, capacidade; além de energia, responsabilidade”.
Mencionou que, ao final do último ano letivo, 30.185 jovens se formaram nas universidades cubanas, incluindo 735 estudantes de 62 países, entre os quais “mais de uma vintena de novos médicos palestinos e cinco médicos norte-americanos”.
“Cuba saberá manter-se como exemplo de uma revolução que não claudica”
O encerramento retomou palavras do próprio Fidel Castro: “Cuba saberá manter-se como exemplo de uma revolução que não claudica, que não se vende, que não se rende, que não se põe de joelhos”. A plateia respondeu com gritos de “¡Yo soy Fidel!” e “¡Venceremos!”.
Díaz-Canel declarou que a direção do Partido e do governo assume “o enorme compromisso com a obra imensurável de Fidel” e concluiu: “O centenário de Fidel é um ponto de partida. Não basta recordá-lo, há que estudá-lo. Não basta admirá-lo, há que emulá-lo”.