Feminicídio tem maioria de vítimas negras, revela Anuário

Foto: Agência Brasil

A violência de gênero atinge mulheres de todas as classes, regiões e raças, mas não da mesma forma. No Brasil, o feminicídio continua tendo um recorte racial evidente: em 2025, 65,1% das mulheres assassinadas por razões de gênero eram negras. O dado integra a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública e reforça que o racismo segue aprofundando a vulnerabilidade das mulheres negras diante da violência letal.

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O recorte racial se repete em outros indicadores da violência letal. Nas mortes violentas intencionais de mulheres que não foram classificadas como feminicídio, 74,6% das vítimas eram negras e 24,6% brancas, evidenciando que a desigualdade racial vai além dos crimes tipificados como feminicídio.

Para as pesquisadoras Isabella Matosinhos e Juliana Brandão, responsáveis pelo capítulo “A violência que permanece: feminicídio e outros crimes contra mulheres no Brasil”, compreender esse cenário exige ir além da dimensão de gênero. A violência letal contra mulheres, afirmam, deve ser analisada a partir de uma perspectiva interseccional, que considere como o racismo e o machismo se combinam para produzir diferentes níveis de vulnerabilidade.

“A violência letal de gênero atinge todos os grupos sociais, mas continua incidindo de forma desproporcional sobre mulheres negras”, afirmam.

Racismo amplia a violência de gênero

Na avaliação das pesquisadoras, os avanços legais conquistados ao longo das duas décadas da Lei Maria da Penha foram fundamentais para transformar a violência doméstica em uma questão de Estado, mas ainda não foram suficientes para romper estruturas históricas de desigualdade.

“O marco jurídico foi reorganizado, porém não foi suficiente para desmontar, na mesma velocidade, a combinação de dependência econômica, controle coercitivo, tolerância social à violência e falhas na proteção estatal, que alimentam o ciclo de agressões”, escrevem.

As autoras observam também que essas desigualdades se tornam ainda mais profundas quando atravessadas pelo racismo.

“O machismo e o patriarcado seguem ditando a opressão de gênero. Contudo, o racismo continua potencializando a vulnerabilidade e alçando as mulheres negras ao patamar superior não só da violência letal, como das demais expressões de violência contra a mulher”, afirmam.

O diagnóstico reforça que o enfrentamento ao feminicídio não pode ser limitado ao sistema de Justiça ou às respostas penais. Para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, as mortes representam o estágio mais extremo de uma cadeia de violências alimentada por desigualdades sociais, dependência econômica e discriminação racial.

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Violência que resiste

O recorte racial aparece justamente em um momento em que o país registra comportamentos distintos na violência letal. Enquanto os homicídios de mulheres caíram 5,5% em 2025, os feminicídios voltaram a crescer e atingiram o maior número da série histórica, com 1.571 vítimas.

Na avaliação das autoras, o aparente paradoxo revela que a violência baseada em gênero responde a dinâmicas diferentes daquelas associadas à criminalidade urbana. Trata-se de uma violência sustentada por relações de poder, controle e desigualdade. Para elas, enfrentar esse cenário exige que o Estado amplie as políticas públicas para além da punição dos agressores.

“A migração para uma perspectiva de prevenção e de intervenção precoce para estancar a violência não só cabe, como é urgente”, defendem.

Mais do que registrar quem morre, os dados do Anuário expõem quem permanece mais vulnerável à violência extrema. Eles mostram que ser mulher e negra no Brasil ainda significa enfrentar um risco desproporcional de violência letal, resultado da sobreposição entre racismo estrutural e desigualdade de gênero.

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