Fuga da justiça vira método da extrema direita

Eduardo Bolsonaro, Carla Zambelli, Flávio Bolsonaro e Alexandre Ramagem. Fotos:@bolsonarosp Instagram e @delegadoramagem X

A covardia da família Bolsonaro está no DNA. As fugas e as tentativas de escapar da Justiça se tornaram método dentro do clã, alcançando também aliados.

Assim, não aceitar o resultado das urnas virou rotina para a extrema direita. Quando confrontado com a realidade dos fatos, o grupo age para subverter as derrotas e criar uma narrativa de perseguição. A finalidade, todos já conhecem: tentar justificar o injustificável e escapar de investigações e condenações ao fugir para o exterior.

Mas essa postura controversa tem ampliado o vácuo de representação dentro da extrema direita, considerando que a direita foi cooptada pelo bolsonarismo nos últimos anos.

Com tantos representantes fora do Brasil, incapazes de organizar uma oposição responsável em solo nacional, e com Jair Bolsonaro em prisão domiciliar, o grupo bolsonarista está sem direção no momento, o que deixa o caminho aberto para que o presidente do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, seja um imã para toda sorte de órfãos deixados pelo fugitivo Flávio Bolsonaro (PL). Ao que parece, quem já se lança nessa pretensão é o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF).

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No entanto, para se credenciar para esse posto, qualquer um precisará escolher bem onde irá pisar, pois o grupo bolsonarista que fugiu do Brasil é grande e não pretende dividir o espólio de Jair assim tão fácil.

Veja a seguir quem já tentou ou escapuliu do Brasil, além do mais novo fugitivo, Flávio Bolsonaro:

Eduardo Bolsonaro >>> EUA

O primeiro dos Bolsonaros a fugir foi Eduardo. O ex-deputado estadual deixou o Brasil rumo aos Estados Unidos em março de 2025. De lá, articulou uma série de ações lesa-pátria como o ‘tarifaço’ e o apoio norte-americano à campanha do irmão. O filho 03 deixou o País alegando perseguição do STF (Supremo Tribunal Federal), mas não havia ordem de prisão aberta contra ele. Depois de perder o mandato por faltas na Câmara, Eduardo foi efetivamente condenado por coação no curso do processo ao investir contra autoridades brasileiras para contestar a condenação do pai.

Há suspeitas de que ele esteja sendo financiado nos EUA com recursos desviados da produção do filme Dark Horse. Flávio recebeu R$ 61 milhões de Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, supostamente relacionados ao projeto.

Carla Zambelli >>> Itália

A ex-deputada federal Carla Zambelli (PL) fugiu do Brasil em maio de 2025 depois de ser condenada por orquestrar uma invasão hacker ao sistema do Conselho Nacional de Justiça. O seu trajeto teve passagens por Argentina e EUA antes de chegar à Itália, onde está. Por ter cidadania italiana, acreditou na impunidade, mas foi presa em julho daquele ano, pois seu nome estava na lista vermelha da Interpol. Em dezembro, renunciou ao mandato. Desde maio de 2026, ela aguarda em liberdade provisória a Justiça da Itália decidir sobre sua extradição.

Zambelli ainda recebeu uma segunda condenação por ter perseguido e apontado uma arma para um homem na véspera do 2º turno das eleições de 2022.

Silvinei Vasques >>> Paraguai >>> cadeia

Conhecido por ordenar blitzes contra eleitores do presidente Lula (PT) na eleição de 2022, o ex-diretor da Polícia Rodoviária Federal Silvinei Vasques não logrou êxito na sua tentativa de fuga do País. Ele foi condenado pelo STF por envolvimento na trama golpista que previu o assassinato de autoridades e culminou no 8 de Janeiro.

A malfadada tentativa de fuga ocorreu após ele tirar a tornozeleira eletrônica e cruzar a fronteira com o Paraguai com destino a El Salvador, em plena véspera de Natal. As autoridades paraguaias o prenderam no aeroporto de Assunção e desde então ele cumpre a pena de 24 anos e 6 meses de prisão na Papudinha, em Brasília.

Alexandre Ramagem >>> Estados Unidos

Também condenado pela trama golpista, Alexandre Ramagem fugiu do Brasil rumo aos Estados Unidos em setembro de 2025 depois de cruzar a fronteira com a Guiana. Ele foi condenado a 16 anos, pois contribuiu para a tentativa de golpe enquanto era diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). Ramagem havia sido eleito deputado federal pelo PL no Rio de Janeiro nas eleições de 2022. O mandato durou até dezembro do ano passado, quando a Câmara o cassou.

Ele vive nos EUA e chegou a ser detido pelo ICE, a polícia migratória de Donald Trump, no último mês de abril. A detenção durou apenas 48 horas e agora o ex-deputado aguarda a decisão sobre seu pedido de asilo. As autoridades brasileiras solicitam a extradição de Ramagem aos EUA, mas enquanto isso não acontece, ele já posou ao lado do recém-chegado Flávio, assim como fez Eduardo.

Jair tentou fugir?

Quando a situação do ex-presidente Jair Bolsonaro começou a engrossar por ser apontado como o líder da trama golpista, ele já cumpria medidas cautelares com a intenção de impedir uma possível fuga.

Muitos consideraram a sua ida aos EUA, antes mesmo do término do mandato, como um indicativo de fuga, mas ele voltou depois de três meses.

Já em fevereiro de 2024, uma situação chamou a atenção. Ele ficou duas noites na Embaixada da Hungria, em Brasília, após ter o passaporte apreendido pela Polícia Federal. Para muitos, ali existiu a ideia de arquitetar uma fuga ou um pedido de asilo, porém a Justiça descartou a hipótese.

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Em agosto de 2025, Jair foi colocado em prisão domiciliar por descumprir medidas cautelares enquanto era investigado. Em novembro, dias antes de receber a condenação definitiva do STF pela trama golpista, ele tentou romper a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda. A situação foi vista como novo indício de tentativa de fuga.

No curso das investigações, também foi encontrado no celular do ex-presidente um rascunho de pedido de asilo político que seria destinado ao presidente da Argentina, Javier Milei.

Apesar dos casos, Bolsonaro pai alternou entre a Papudinha e a sua residência em Brasília, onde cumpre prisão domiciliar.

Allan dos Santos, Oswaldo Eustáquio e Paulo Figueiredo

Além do campo político, há os bolsonaristas que dão sustentação à máquina de desinformação, operando fora do Brasil.

O blogueiro Allan dos Santos está nos EUA desde 2020. Ele é considerado foragido da Justiça brasileira desde 2021, quando teve prisão preventiva decretada dentro do inquérito das fake news, acusado de integrar “milícias digitais” e espalhar notícias falsas para atacar instituições nacionais e desacreditar o processo eleitoral.

O também blogueiro Oswaldo Eustáquio opera da Espanha desde que deixou o Brasil em 2023. Ele fugiu para escapar de dois mandados de prisão preventiva expedidos em razão do descumprimento de medidas cautelares após o seu envolvimento e financiamento dos atos antidemocráticos de 8 de Janeiro. Na última sexta-feira (23), o STF tornou Eustáquio réu por associação criminosa por atuar contra as instituições na tentativa de golpe de Estado.

Por fim, Paulo Figueiredo, neto do ex-ditador João Figueiredo, dá respaldo para a família Bolsonaro nos EUA. Ele, que é muito próximo de Eduardo, vive há mais de uma década no país, mas de lá atua contra as instituições nacionais. Sua prisão preventiva foi decretada pelo STF também pelo incentivo aos atos antidemocráticos, pela tentativa de golpe de Estado e pela abolição violenta do Estado Democrático de Direito. Figueiredo é considerado foragido e sua acusação no inquérito da trama golpista está pendente de análise, ‘uma vez que o denunciado não pôde ser notificado porque seu endereço não foi localizado’, informa o Supremo.

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