É hora de os leitores — e, sobretudo, a própria categoria — aprenderem a separar o verdadeiro trabalho de reportagem dessa praga oportunista.
A diferença é elementar.
A independência jornalística não consiste em não ter opinião. Consiste em não entregar a terceiros — procuradores, policiais, ministros, políticos, empresários, advogados ou assessores — o direito de decidir o que é verdade e o que merece ser notícia.
Fazer jornalismo significa receber as informações com o mesmo ceticismo que todo repórter deve dedicar ao material fornecido por uma fonte interessada; ouvir o contraditório; conferir documentos; checar fatos, versões e fundamentos; e, só então, publicar.
Lembro-me de um evento promovido por Audálio Dantas, em Tiradentes, para discutir a cobertura da operação Lava Jato. O primeiro dia ficou a cargo da Abraji — Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo —, que se transformou em repassador de releases, e teve Miriam Leitão como a guru do grupo no evento. Fui convidado a falar no segundo dia.
Expus minhas ressalvas à cobertura, especialmente à transformação de tantos jornalistas em meros repassadores de releases e vazamentos da Lava Jato. Uma das fundadoras da Abraji — já aposentada, mas consagrada como repórter investigativa — perguntou-me:
Respondi:
— O óbvio: faria jornalismo.
O jornalismo-sela, portanto, não foi apenas um vírus oportunista, alimentado por vazamentos seletivos, versões interessadas e interpretações duvidosas. Tornou-se peça ativa no processo de desestabilização política do país.
Um exemplo recente foi a exploração inicial dos vazamentos do caso Master e, particularmente, a cobertura envolvendo Fábio Luiz. Jornalisticamente ridícula e politicamente perigosa, ela produziu semanas de cobertura abjeta: informações irrelevantes eram repetidas incessantemente até adquirirem, pelo simples efeito da repetição, uma importância que os fatos não lhes conferiam.
O problema é agravado pela extrema mediocridade das atuais direções de jornalismo dos grandes jornais, sempre prontas a embarcar na onda do concorrente. Bastava uma informação irrelevante virar manchete em O Globo para que Folha e Estadão corressem atrás, não para verificar se havia notícia, mas para não parecer que estavam perdendo uma.
Forma-se assim uma espécie de cartel da irrelevância: um veículo legitima o outro, a repetição substitui a apuração e o volume da cobertura passa a ser apresentado como prova da importância do fato.
Fonte não é verdade. No máximo, fornece pistas. Vazamento não é investigação, é o início do processo. E jornalista não nasceu para ser sela. E ser sela não é fazer jornalismo.