Primeiro grande ideólogo da imprensa corporativa, Ortega y Gasset dizia que a primeira missão de um jornal era assegurar sua perenidade.
Em meu livro “O jornalismo dos anos 90”, analiso 20 momentos em que a imprensa cedeu aos movimentos de linchamento. A lógica era repetitiva. Acontecia algum fato de impacto, um crime, uma suspeita. O leitor queria respostas imediatas. Assim, a primeira versão que apontasse um culpado era a que conduzia a boiada. Não havia competição entre os jornais: todos ficavam presos ao mesmo enfoque inicial da cobertura. Ser a favor do linchamento atendia às demandas do leitor e não implicava riscos futuros. Afinal, se a versão estivesse errada, o jornalista estaria na companhia de toda a imprensa. Agora, com a consolidação das redes sociais, o jogo tornou-se quase irreversível.
Há vários empecilhos ao bom jornalismo. O mais conhecido é a pressão dos anunciantes. Mas há outro, quase tão deletério: a pressão dos leitores, especialmente em tempos de ampla polarização, como agora.
O país entrou nos anos 90 sob ventos democráticos. E aí apareceu o grande poder da imprensa, derrubando presidentes e ajudando a formatar opiniões.
Mas, enquanto prevaleceu o pacto, os jornais conseguiram cumprir sua missão. A partir dos anos 90, houve uma profissionalização da publicidade, que passou a medir os jornais de acordo com a tiragem e o público atingido. E a Folha, de Otávio Frias de Oliveira, percebeu que a chave do crescimento seria atender a todos os públicos — movimento valorizado pela inflexibilidade de O Globo e do Estadão. Afinal, o leitor do PT consome bens de consumo como os do PSDB, do PFL. Essa diversidade era atingida proporcionando um grau maior de liberdade aos colunistas.
Há uma questão política no aparecimento da imprensa alternativa, mas, sobretudo, oportunidades de mercado. Quando a Folha atendia a todos os públicos, não havia esse espaço. Com a radicalização, os setores democráticos ficaram à deriva, abrindo espaço para o aparecimento de blogs e portais.
Agora, a polarização veio acompanhada de uma mudança no modelo de negócio. Durante algum período, a publicidade do Google garantia receita para os veículos alternativos. Do mesmo modo, havia espaço na publicidade oficial, embora o maior filão fosse para a imprensa corporativa.
O que se vê, então, são não apenas jornalistas transformados em influenciadores, mas intelectuais e estrelas da TV. Aparentemente, para alguns canais, como a GloboNews, um dos ativos dos comentaristas passou a ser o número de seguidores. E, para engajar seguidores, as mensagens têm que ser curtas e impactantes, ou então vídeos com micagens dos jornalistas, do tipo “eu sou gente (boba) como você”.
Esse modelo espalhou-se também pela cobertura dos grandes jornais. Não há mais grandes reportagens, restritas agora a poucos portais alternativos. O que há é uma saraivada de notas curtas, com pegadinhas do tipo “adivinhe o que…”, em que o título não reflete a informação objetiva, mas se limita a aguçar a curiosidade.
A imprensa alternativa não fica atrás. Com menos recursos do que a imprensa corporativa, muitos portais se limitam a releituras de suas notas, ressaltando aspectos minimizados por ela.
No caso dos intelectuais, o jogo é mais humilhante. A rapidez das redes sociais exige, diariamente, a atualização de comentários. A produção de um intelectual, ao longo de sua vida, gera uma, no máximo duas, ideias originais. E as redes sociais não admitem temas repetidos. Assim, alguns deles passam a atuar como influenciadores, sempre a identificar qualquer tolice da direita para rebater com a voz indignada dos justos.