A política não se cansa de aprontar surpresas para quem insiste em traçá-la em linha reta. É que os ventos mudam de direção com alguma frequência.
Repórteres e comentaristas dos veículos de comunicação, acadêmicos, institutos de pesquisa e observadores da cena política previam uma vitória por margem reduzida do Partido Democrata na Câmara dos Deputados dos Estados Unidos e uma disputa acirrada pelo controle do Senado.
Abertas as urnas da eleição de meio de mandato, o que se viu foi um tsunami democrata, uma onda azul avassaladora, que impôs a Donald Trump sua maior e mais humilhante derrota política.
Com os votos ainda em fase final de apuração, os democratas estavam emplacando 228 deputados contra 139 dos republicanos e 54 senadores ante 44 do Partido Republicano. Além disso, 27 dos 36 governos estaduais em disputa foram conquistados pelo Partido Democrata.
Chama a atenção a vitória democrata para o Senado até mesmo em tradicionais redutos republicanos, como Texas, Carolina do Norte, Carolina do Sul, Kansas, Iowa, Ohio e Maine.
Ninguém foi capaz de prever uma vitória tão acachapante.
O eleitor norte-americano se mostrou mais contrariado do que parecia com o aumento generalizado de preços provocado pelos tarifaços de Trump, com o reajuste dos combustíveis causado pela guerra contra o Irã, com a truculência das deportações em massa, com a expansionismo imperialista de Trump, com as agressões verbais do presidente às mulheres, aos negros e aos hispânicos.
A mensagem dos americanos foi clara: querem o fim das guerras e da política de confronto permanente de Trump contra dezenas de países, sejam eles concorrentes econômicos e geopolíticos ou até aliados históricos; desejam estabilidade econômica e estão cansados de um presidente que só os envergonha diante do mundo.
O triunfo democrata fortaleceu ainda a ala mais progressista do partido com a eleição de negros, mulçumanos, gays, mulheres, hispânicos e candidatos que denunciam o genocídio em Gaza.
Em apenas dez dias, a extrema direita, primeiro no Brasil e agora nos EUA, sofreu dois revezes históricos (sem falar de Israel, onde Netanyahu perdeu a maioria), com potencial para provocar uma inflexão global.
Os direitistas do PP espanhol e seus aliados do Vox, de extrema direita, que disputam a eleição na Espanha com o presidente Pedro Sanches, do Partido Socialista Operário Espanhol (PSOE), que ponham suas barbas de molho.
Milei também não perde por esperar, pois 2027 bate à porta. Já para Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro o sonho americano pode virar pesadelo.