Há algo de profundamente equivocado na maneira como os apresentadores do Jornal Nacional trataram Luiz Inácio Lula da Silva durante a sabatina realizada ontem. A condição de candidato à reeleição parece ter servido de justificativa para que fosse apagada, no tratamento dispensado a ele, uma circunstância elementar: Lula não é apenas candidato. É, antes de tudo, o presidente da República em pleno exercício de seu mandato constitucional
Isso não significa impedir perguntas duras, críticas ou cobranças. O presidente da República deve ser questionado, inclusive com rigor, por suas decisões e por seus atos de governo. Uma coisa é exercer o jornalismo crítico, se aquilo que se viu ontem pode ser assim considerado; outra, muito diferente, é rebaixar simbolicamente a autoridade institucional de quem ocupa o mais alto posto da República.
Em democracias consolidadas, inclusive algumas que a Globo cultua, há uma clara distinção entre o respeito ao cargo e a concordância com seu ocupante. Presidentes são contestados, criticados e confrontados. Mas a liturgia institucional não desaparece porque se aproximam as eleições. O chefe de Estado e de governo continua sendo reconhecido como tal. A candidatura não anula o mandato.
A ordem dos fatores importa. Lula disputa a reeleição porque é presidente. E continuará sendo presidente durante toda a campanha eleitoral. Não há uma espécie de licença institucional automática que transforme o chefe de Estado em simples concorrente eleitoral a partir do momento em que registra sua candidatura.
A liturgia, neste caso, não é detalhe decorativo. Tem valor político. O respeito às instituições da República ajuda a preservar a própria ideia de Estado acima das disputas circunstanciais. O cargo não pertence a uma emissora, a um partido, a uma candidatura ou às preferências de quem formula as perguntas. O cargo pertence à República e deve ser tratado com a dignidade que lhe corresponde.
Isso ganha significado ainda maior no caso do atual presidente. O mandato de Lula foi alvo de uma tentativa de golpe de Estado punida exemplarmente e o país, inclusive a Globo, ainda está obrigado a compreender em toda a sua gravidade. A tentativa de golpe não foi dirigida contra a pessoa de Lula. Foi antes de tudo uma agressão às instituições e à legitimidade do presidente eleito pela maioria dos brasileiros. O combate ao golpe marcou este mandato de Lula. Traçou um corte inédito na história de impunidades em tentativas semelhantes no passado.
A Globo tem o direito de formular as perguntas que considere pertinentes e de adotar seus critérios jornalísticos, por mais enviesados que sejam. Mas eventuais preferências, expectativas ou anseios editoriais não podem servir de justificativa para reduzir a dimensão institucional da Presidencia.
Lula é candidato, sim. Mas não apenas. E, enquanto exercer o mandato que lhe foi conferido constitucionalmente, há uma precedência que não deveria ser apagada por qualquer conveniência: antes de ser candidato à reeleição, Lula é o presidente da República.
É isso que a Globo parece ter escolhido esquecer. Mas a condição de candidato não revoga o mandato presidencial. Até o último dia de seu governo, antes e acima de tudo, Lula é o presidente Lula.