O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, durante a coletiva de imprensa sobre temas diplomáticos da terceira sessão da 14ª Assembleia Popular Nacional.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, declarou nesta sexta-feira (7) que Pequim continuará a tomar medidas retaliatórias contra as “tarifas arbitrárias” impostas pelos Estados Unidos. Durante uma entrevista coletiva na sessão parlamentar anual do país, Wang criticou duramente a administração de Donald Trump, acusando-a de incentivar a “lei da selva” ao adotar uma postura unilateralista na arena internacional.
“Se todos os países enfatizarem ‘meu país em primeiro lugar’ e forem obcecados por uma posição de força, a ‘lei da selva’ reinará no mundo novamente, com os países menores e mais fracos sofrendo o impacto primeiro e as normas e ordens internacionais gravemente prejudicadas”, de acordo com Wang.
Um país importante deve honrar suas obrigações internacionais e cumprir suas devidas responsabilidades, disse Wang. A história provará que o verdadeiro vencedor é aquele que tem em mente os interesses de todos.
Segundo Wang, a China tentou cooperar com os EUA no combate ao tráfico de fentanil, mas recebeu como resposta tarifas punitivas. “Nenhum país deve fantasiar que pode reprimir a China e manter um bom relacionamento com a China ao mesmo tempo”, afirmou o chanceler chinês. Para ele, essa abordagem de “duas caras” compromete a estabilidade das relações bilaterais e mina a confiança mútua.
Tarifas e medidas de retaliação
Nesta semana, Washington anunciou novas tarifas contra produtos chineses, alegando preocupações com o contrabando de fentanil. Em resposta, Pequim classificou as medidas como injustificadas e anunciou tarifas adicionais sobre produtos agropecuários americanos. A partir de segunda-feira (10), itens como soja, carne bovina, frutos do mar e laticínios estarão sujeitos a um imposto adicional de 10%, enquanto o frango, trigo e milho enfrentarão taxas de até 15%.
A escalada tarifária marca mais um capítulo da disputa comercial entre as duas maiores economias do mundo, que se intensificou desde o retorno de Trump à Casa Branca em janeiro. Os EUA aumentaram impostos fixos sobre todas as importações chinesas para 20%, enquanto a China respondeu com tarifas de 15% sobre produtos americanos e restrições comerciais.
Ele disse que os Estados Unidos deveriam repensar o que têm conquistado com as guerras tarifárias e comerciais nesses anos — se seu déficit comercial aumentou ou diminuiu, se sua manufatura se tornou mais ou menos competitiva, se sua inflação subiu ou desceu e se a vida de seu povo melhorou ou piorou.
“Pequenos pátios com cercas altas” não podem suprimir o espírito de inovação, e o desacoplamento e a interrupção das cadeias de suprimentos só levarão ao autoisolamento, disse o ministro. Wang disse que a ciência e a tecnologia não devem ser usadas para erguer uma cortina de ferro, mas devem ser a riqueza que beneficia todos e é compartilhada por todos.
“Onde há bloqueio, há avanço; onde há repressão, há inovação”, respondeu Wang a uma pergunta sobre a repressão tecnológica dos Estados Unidos contra a China. Observando que a repressão externa injustificada sobre a China, seja na ciência espacial ou na fabricação de chips, nunca parou, Wang afirmou que o caminho da China para se tornar uma potência científica e tecnológica está se ampliando.
China e o multilateralismo
Durante a coletiva, Wang Yi reforçou a posição da China como defensora do multilateralismo e criticou a política isolacionista dos EUA. “Se cada país se concentrar apenas em suas prioridades nacionais e acreditar apenas na força e no status, o mundo retornará à idade da pedra”, alertou Wang, destacando que países pequenos e vulneráveis seriam os mais prejudicados.
O chanceler também ressaltou a importância do Sul Global na economia mundial e defendeu uma maior influência dos países emergentes na governança global. Ele elogiou o papel dos BRICS e destacou que a China lidera mais de 1.000 projetos de desenvolvimento na África e na América Latina.
“Não haverá modernização global sem a modernização africana, e a estabilidade e o desenvolvimento da África são vitais para o futuro da humanidade”, disse Wang. Este ano marca o 25º aniversário do Fórum de Cooperação China-África. Nos últimos 25 anos, a China ajudou a África a construir ou modernizar cerca de 100 mil quilômetros de estradas e mais de 10 mil quilômetros de ferrovias, disse Wang, acrescentando que, somente nos últimos três anos, as empresas chinesas criaram mais de 1,1 milhão de novos empregos na África.
Para promover o desenvolvimento comum da humanidade, a China tomou medidas práticas para implementar a Iniciativa de Governança Global de IA apresentada pelo presidente Xi Jinping e lançou o Plano de Ação de Capacitação de IA para o Bem e para Todos, enfatizou Wang.
A China também propôs a Iniciativa de Cooperação Internacional em Ciência Aberta juntamente com o Brasil, a África do Sul e a União Africana, convocando todos a dar prioridade à capacitação científica e tecnológica do Sul Global para que nenhum país seja deixado para trás, acrescentou Wang.
A China está “pronta para compartilhar os frutos da sua inovação com mais países e explorar conjuntamente os mistérios das estrelas e dos oceanos”, manifestou Wang.
Posição da China sobre conflitos internacionais
Sobre a guerra na Ucrânia, Wang Yi reafirmou a necessidade de negociações para uma solução pacífica. Segundo ele, a China quer promover um “acordo de paz justo, duradouro e vinculante” e continuará atuando como mediadora. Ao mesmo tempo, é necessário reconhecer que as raízes desta crise são complexas, pois “três palmos de gelo não se formam num só dia”, e sua dissolução também não será imediata. No entanto, o conflito não pode ter vencedores, do mesmo modo que a paz não terá perdedores.
No início do conflito, o presidente Xi Jinping apresentou a importante proposta dos “quatro deveres”, a qual delineou a direção dos esforços chineses. Com base nisso, a China publicou um documento sobre sua posição na crise da Ucrânia, destacou enviados especiais para diplomacia itinerante e, juntamente com o Brasil e outros países do Sul Global, lançou na ONU a iniciativa “Amigos da Paz”.
Por fim, Wang Yi afirmou que, após mais de três anos de conflito, é evidente que essa tragédia poderia ter sido evitada. Todas as partes devem tirar lições da crise: a segurança é mútua e igualitária. A segurança de um país não pode ser construída à custa da insegurança de outro. É necessário defender e implementar um novo conceito de segurança comum, abrangente, cooperativa e sustentável, para alcançar uma paz duradoura na Eurásia e em todo o mundo, concluiu.
O ministro também criticou o plano de Trump para Gaza, que inclui assumir o controle do enclave e deslocar palestinos para países vizinhos. Para Wang, qualquer alteração forçada no status do território apenas agravaria as tensões. Ele reiterou o apoio da China ao plano de paz apresentado pelo Egito e por outras nações árabes, enfatizando que a solução de dois Estados é a única alternativa viável para a região.
Taiwan: linha vermelha da China
Questionado sobre Taiwan, Wang Yi foi enfático ao afirmar que a ilha “nunca foi um país e nunca será no futuro”. Ele alertou que qualquer movimento em direção à independência de Taiwan seria visto como uma “ameaça à estabilidade regional” e que aqueles que apoiam essa ideia “estarão brincando com fogo”.
A vitória da Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa colocou Taiwan de volta sob a jurisdição soberana da China em 1945, acrescentou. Este ano, marca o 80º aniversário da recuperação de Taiwan. A China comemorará este 80º aniversário da vitória na Guerra de Resistência do Povo Chinês contra a Agressão Japonesa e na Guerra Mundial Antifascista, e realizará uma série de grandes eventos, incluindo a cúpula da Organização de Cooperação de Shanghai este ano, de acordo com Wang.
Tanto a Declaração do Cairo quanto a Proclamação de Potsdam, emitidas pelas principais nações vitoriosas da Segunda Guerra Mundial, declararam em termos explícitos que Taiwan é um território que o Japão roubou dos chineses e que deve ser devolvido à China. O Japão também aceitou os termos da Proclamação de Potsdam e anunciou sua rendição incondicional, destacou Wang.
A Resolução 2758, adotada em 1971 pela Assembleia Geral da ONU, resolveu a questão da representação de toda a China, incluindo Taiwan, na ONU, e excluiu qualquer possibilidade de criação de “duas Chinas” ou “uma China, uma Taiwan”, enfatizou Wang.
“Tudo isso confirmou a soberania da China sobre Taiwan e formou uma parte importante da ordem internacional pós-guerra”, observou Wang.
Clamar pela “independência de Taiwan” é dividir o país, apoiar a “independência de Taiwan” é interferir nos assuntos internos da China e ser conivente com a “independência de Taiwan” é minar a estabilidade do Estreito de Taiwan, afirmou ele.
Wang salientou que o respeito pela soberania e integridade territorial de todos os países deve significar apoio à reunificação completa da China e o compromisso com o princípio de Uma Só China deve significar oposição a qualquer forma de “independência de Taiwan”.
“Buscar a ‘independência de Taiwan’ está condenada ao fracasso e usar Taiwan para conter a China não será mais do que uma tentativa fútil”, disse Wang. “A China realizará a reunificação, e isso é imparável.”
A entrevista coletiva de Wang Yi reforçou a posição da China como um ator global que busca se contrapor às medidas unilaterais de Washington. Pequim sinaliza que está disposta a dialogar, mas não aceitará pressões externas sem resposta. Com a crescente fragmentação geopolítica, a disputa entre China e EUA promete continuar sendo um dos principais temas das relações internacionais em 2025.
A partir de informações do Diário do Povo Online