
Em meio ao trabalho artesanal com peles de foca, tradição que exige meses de esforço físico até se transformar em botas capazes de enfrentar as tempestades do Ártico, a rotina de Maja Overgaard passou a ser atravessada por uma preocupação muito maior. Na capital Nuuk, cresce o receio de que a Groenlândia se torne alvo direto das ambições geopolíticas de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, que voltou a falar publicamente sobre a possibilidade de assumir o controle da ilha.
A reportagem, publicada originalmente pelo Financial Times, revela que a ameaça deixou de ser tratada como mera retórica e passou a impactar o cotidiano da população local, que teme uma escalada sem precedentes nas tensões entre Washington, Nuuk e Copenhague.
Para Martin Rasmussen, outro residente de Nuuk, o risco é real e imediato. “Trump está falando sério”, disse, enquanto tratava uma pele de foca. Ele afirma ter começado a boicotar produtos norte-americanos. “Trump vai lutar até o fim”, completou.
Trump também acusa a Dinamarca de não proteger adequadamente o território e de permitir a presença de embarcações russas e chinesas na região. Autoridades nórdicas e moradores locais rejeitam essas alegações.
No porto de Nuuk, o pescador Helte Johannsen, que navega pela costa da Groenlândia há quase 40 anos, diz nunca ter visto sinais dessa suposta ameaça estrangeira. “Nunca vi russos nem chineses”, afirmou. Para ele, o presidente dos Estados Unidos desconhece a realidade local. “Acho que Trump não sabe nada sobre a Groenlândia.”
Já Josef Iyberth, que divide o tempo entre a pesca do bacalhau e a caça tradicional de focas e renas, descarta qualquer reação armada a uma eventual invasão. “Nossas armas não são para pessoas”, disse, em tom de riso.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, reagiu com dureza e afirmou que um ataque dos Estados Unidos significaria o fim da Otan. Em Nuuk, o medo começa a se transformar em indignação. O deputado groenlandês Per Berthelsen criticou duramente a postura americana. “Eles estão nos tratando como se fôssemos mercadoria em uma loja”, declarou. Para ele, há semelhanças claras entre a atitude dos Estados Unidos e a política de expansão territorial da Rússia. “Tenho dificuldade em ver diferença entre a forma como os americanos estão agindo em relação à Groenlândia e a Rússia, onde o interesse é ampliar território".
Berthelsen reforçou que a população rejeita qualquer negociação sobre sua soberania. “Não estamos à venda. Não queremos ser americanos, queremos ser groenlandeses". Embora exista consenso sobre a busca por independência em relação à Dinamarca, há divergências sobre a velocidade desse processo e sobre a estratégia diante da pressão americana.
O pesquisador Jeppe Strandsbjerg, especialista em assuntos do Ártico na Universidade da Groenlândia, avalia que o governo local, favorável a uma independência gradual, tem atuado em alinhamento com Copenhague. “Estamos vendo uma colaboração muito mais próxima no último ano”, afirmou, destacando que divergências recentes não romperam a cooperação entre as duas capitais. “Eles não estão separando Nuuk e Copenhague.”
As relações entre a Groenlândia e a Dinamarca carregam um histórico marcado por abusos contra os inuítes, incluindo reassentamentos forçados e políticas de controle reprodutivo sem consentimento. Ao ser questionado sobre o risco de trocar um dominador por outro, Broberg reagiu de forma contundente. “Como poderia ser pior?”, perguntou. “Estamos vivendo um pesadelo, não podemos nos preocupar com o próximo".
Apesar de Donald Trump insistir que seu país poderia oferecer vantagens econômicas à Groenlândia, o discurso não convence a maioria da população. Nem mesmo Broberg admite buscar a independência com apoio direto de Washington, embora diga estar aberto, no futuro, a acordos semelhantes aos firmados entre os Estados Unidos e algumas ilhas do Pacífico, mas apenas após a independência formal.
Na prática, não há sinais de esforço americano para conquistar apoio popular. O consulado dos Estados Unidos em Nuuk aparenta estar fechado há meses, segundo moradores que dizem nunca ter visto movimentação no local. Uma exceção é Jørgen Boassen, conhecido por sua simpatia por Trump e por manter contato com representantes americanos.
Boassen afirma confiar no atual presidente dos Estados Unidos. “Confio em Trump”, disse, ao listar supostos benefícios de uma anexação. “As pessoas poderiam envelhecer na Flórida”, comentou.
A desconfiança em relação aos Estados Unidos, porém, é dominante. A artesã Sofie Amondsen, que trabalha com intestinos de foca para produzir adornos tradicionais inuítes, descreve a possibilidade de uma tomada de controle como dolorosa. “Estamos apenas começando a nos curar da colonização dinamarquesa”, afirmou. Ela relatou experiências em comunidades inuítes do Alasca e do Canadá, onde o inglês substituiu línguas nativas. “Eles me contaram que seus avós e pais foram proibidos de falar a própria língua".
Segundo Amondsen, caçadores em regiões remotas da Groenlândia já notam sinais do aumento das tensões, como cartuchos deixados por exercícios militares. Para muitos groenlandeses, o exemplo do Alasca serve de alerta sobre a perda de identidade cultural. “Nós ainda temos nossa língua e nossas tradições sob a Dinamarca; eles estão sob os americanos e não têm”, disse Maja Overgaard, enquanto trabalhava a pele de foca diante da neve que batia na janela. “Não quero que isso seja esquecido, que desapareça".

