
Foto: Valter Campanato/Agência Brasil
Vamos a um jogo simples de lógica:
Fato 1 – um jornalista que cobre inquéritos policiais e jurídicos sabe que, se um inquérito não respeitar a chamada “prerrogativa de foro”, poderá ser facilmente anulado. Quem tem a tal prerrogativa, só pode ser julgado pelo Supremo Tribunal Federal.
Fato 2 – o jornalista vaza informações, acusações, ataques ao STF, defendendo que o inquérito passe para a 1ª Instância.
Fato 3 – agora, novas informações confirmam que havia políticos nos inquéritos da Polícia Federal.
Dúvida – quem pretendia, de fato, a anulação do inquérito: o Ministro relator do caso ou os jornalistas que defendiam a ida para a 1ª Instância, antes de concluído o inquérito?
Se o inquérito tivesse ido à 1ª Instância, antes de apurar todos os envolvidos, a esta altura estaria anulado. E os mesmos jornalistas que pressionaram para a mudança estariam colocando a culpa nas instituições.
É importante observar que não há amadores nesse jogo.
Um balanço de todas as críticas especificamente à condução do inquérito por Toffoli: Polícia Federal incomodada com isto, incomodada com aquilo. De substancioso, nada. Mas tudo era invocado como desculpa para tirar o inquérito de suas mãos e abrir espaço para sua anulação.
O que estava errado, no começo, era o vazamento de dados do inquérito, por parte de delegados lava jatistas para jornalistas do mesmo campo.
Toffoli precipitou-se, indicando peritos sérios para o trabalho. Como mostramos aqui, o meu homônimo, indicado por Toffoli, desenvolveu sistemas de pesquisas de dados adotados por 40 países. Atropelou procedimentos jurídicos, mas não foi com a intenção de esconder provas, e sim de impedir vazamentos.
A operação, ainda que atabalhoada, foi bem sucedida. Cessaram os vazamentos, embora mais uma vez a PF passasse pano para os vazadores. E os jornalistas-sela, que se beneficiavam dos vazamentos passaram a se alimentar de “cozidões” – notícias já divulgadas, devidamente requentadas. Curiosamente, a principal beneficiária dos vazamentos, sem acesso a novos vazamentos, repetiu, ontem, a mesma cena do conselho deliberativo do BRB -como testemunha da tela do celular do seu presidente, mostrando a mensagem do diretor do Banco Central. Mas desta vez atribuiu a “quatro fontes” e não ao simbólico “três fontes”.
As denúncias sérias – e são denúncias sérias – sobre resorts e quetais, se somaram a outras ridículas: a de que Toffoli teria viajado de carona, para assistir o jogo do Palmeiras, com um advogado envolvido no caso e combinado sua participação em pleno vôo. Como se decisões estratégicas e fundamentais fossem tomadas em uma carona de avião, com outros passageiros testemunhando.
Criado o clima, a fogueira é alimentada de todas as maneiras. Ontem, foi divulgado, com estardalhaço, o grande “escândalo” do Ministério da Saúde estar comprando insulina de uma empresa que tem Vorcaro como sócio. Deixaram de lado o histórico da empresa – a Biobrás, que fabrica insulina bovina, uma das glórias da biotecnologia brasileira -, e também o fato de que é uma Sociedade Anônima, com gestão profissional.
É uma falta de respeito total, não a Toffoli, mas ao jornalismo e aos leitores. Mas, também, é um ensaio solene de como o STF se expõe, por falta de um código de conduta. Em princípio, todo Ministro passa a ser suspeito. Cada viagem internacional, cada patrocínio de eventos, cada boca livre fora do país é uma granada que a mídia lava jatista deixa guardada. E só ativa quando o Ministro está na ponta diferente do lava jatismo.
Esse desequilíbrio se manifesta, também, na mídia corporativa. Hoje em dia, não se logra a unanimidade fácil da Lava Jato, na qual mesmo jornalistas de primeiro time aderiram vergonhosamente ao jornalismo inquisitorial da campanha. Agora, há vozes sérias que se erguem em defesa do jornalismo. E cavalgando por montanhas espinhosas.
Como explicar ao leitor leigo que há uma diferença fundamental entre desvios éticos e desvios criminosos? Um ex-Ministro do STF aceitando um contrato do Master poderia ser tema de uma discussão sobre desvio ético. Fazer lobby ou favorecimento, valendo-se do cargo público, é desvio criminoso. O ex-Ministro, que, fora do poder, aceitou um contrato do Master – que seria aceito por qualquer grande escritório em operação -, é o mesmo que, no comando da PF, ajudou a desmontar os golpes do Master.
O jornalismo sério pesaria ambos os fatos e o prato da balança apontaria a seriedade do Ministro. O jornalismo de escândalo, não: usaria e requentaria a notícia, deixando insinuações no ar, não com a intenção específica de atingir o Ministro, mas de avançar contra as instituições.
E tudo isso em um movimento que, simultaneamente, anularia o inquérito e pouparia as descobertas sobre os políticos do Centrão.

