
Régis durante partida pelo São Paulo - Giazi Cavalcante/Código19/Gazeta Press
O lateral-direito Régis tinha 28 anos quando foi contratado pelo São Paulo. O jogador chegou ao clube, naquele mês de março de 2018, após ganhar destaque no São Bento durante o Campeonato Paulista. Era a chance que o atleta queria para deslanchar, mas as coisas não saíram como planejadas. Sete meses depois, em outubro, o contrato foi rescindido por problemas pessoais. As drogas colocaram um obstáculo na trajetória. A dependência química interrompeu sonhos justamente no auge.
Quase uma década depois, agora aos 36 anos, o lateral quer recuperar o tempo perdido. Além de voltar a atuar bem, quer ser exemplo para os jovens e já até planeja oferecer suporte a atletas quando se aposentar. Em entrevista exclusiva, Régis abriu o coração sobre os altos e baixos de sua vida. Relembrou as dificuldades, portas fechadas e como o glamour mexeu com a própria cabeça. Também mostrou gratidão a quem o ajudou e deixou um questionamento: em que nível teria chegado no esporte? "O futuro era muito amplo", ele mesmo pontuou.
Na conversa, realizada em um estúdio da ESPN, Régis não teve receio de falar sobre o que passou. "Não é vergonha para ninguém", afirmou. O jogador chegou à redação, em São Paulo, de cabeça erguida e com olhar admirado. É como se tivesse voltado no tempo e ainda fosse um jovem cheio de sonhos. Não é para menos. O período longe fez com que sentisse saudade até de coisas banais.
"As concentrações, as resenhas com os jogadores, a ligação da família desejando boa sorte, essa energia, essa questão pessoal, esse afeto pessoal, o calor da torcida. É o carinho que eu preciso. É o carinho que eu precisava no período em que fiquei afastado. O futebol, dinheiro, fama, tudo isso é supérfluo diante de toda emoção, de tudo que você transmite para as pessoas dentro do campo. Isso é o que me fez muita falta", relembrou.
"Fisicamente eu acho que estou bem. Dá para jogar pelo menos mais uns dois ou três anos. Mas não tenho uma meta. Minha paixão pelo futebol vai além do tempo, até onde meu corpo disser para mim que eu posso jogar, eu vou. Eu perdi muitos anos com os problemas que eu tive. Então eu quero correr atrás de cada minuto, de cada sessão de treinamento que eu perdi, de cada concentração. Hoje vejo atletas reclamando da concentração. Se soubessem o quanto faz falta... Você se relacionar com seus companheiros, estar ali no dia a dia, viajar. Por um momento eu perdi isso, e eu sei o quanto isso é maravilhoso. Enquanto meu corpo disser que dou conta, vou aproveitar ao máximo e desfrutar tudo aquilo que o futebol pode me proporcionar", completou.
Desde que deixou o São Paulo, Régis passou por cerca de 15 clubes, mas longe da elite. O mais recente, neste ano, foi o Sport Club Capixaba, do Espírito Santo. Ele deixou a equipe após o estadual e, agora, busca uma nova oportunidade para 2026. O lateral se diz pronto para atuar.
"Esse retorno é bem parecido com quando um atleta se lesiona. É fundamental que tenha um respaldo familiar, para que tenha a consciência de que precisa se cuidar. É muito desafiador você ter de se condicionar ainda sem ter uma certeza, uma projeção de para onde você vai, mas a vida de atleta de futebol é feita de incertezas. Para mim é tranquilo. Procuro estar centrado, treinando, mantendo a forma e buscando informações do mercado para estar sempre atualizado em busca de boas oportunidades", explicou.
O auge e a queda
Régis é natural do Distrito Federal. Foi lá que começou a carreira, no Legião Futebol Clube, um projeto social para pegar jovens talentos das comunidades e prestar assistência.
"Minha infância foi muito tranquila. Obviamente que, por crescer em ambiente de pouca infraestrutura, você vai ter desafios. Mas sempre encarei desafios como uma maneira de prosseguir, usar de trampolim. Minha família sempre foi humilde. Graças a Deus não passamos grandes dificuldades com alimentação, essas coisas. Sempre procurei estudar. Minha família me deu tudo de melhor dentro das condições. Sou muito feliz e grato pelo que minha família fez por mim", relembrou.
"Mas há desafios sociais para todo jovem de periferia... Dificuldade em relação a educação, criminalidade, drogas. São coisas que o mundo apresenta para todos, independente da classe social, e para mim não foi diferente. Escolher o caminho do bem foi a alternativa que me fez chegar a grandes clubes, como cheguei", completou.
Do Legião, Régis foi para o Goiás, em 2009. Ele passou por times como Ponte Preta e Portuguesa antes de chegar ao Botafogo, em 2014. No Glorioso, não teve grande destaque e voltou a rodar por equipes do interior até ser contratado pelo São Bento. Foi lá que surgiu a oportunidade de ir para o São Paulo.
"Eu demorei um período para me adaptar. Estava chegando no maior clube do país, até me adaptar com toda estrutura. Embora tenha passado por clubes intermediários, como Ponte Preta, Guarani, Portuguesa, que são de expressão no cenário, mas estamos falando do São Paulo. Fiquei um período para me adaptar. Eu fui contratado aos 28 anos. Geralmente não é comum um atleta ser contratado nessa faixa etária. Para mim foi um prêmio diante do que tinha feito no Campeonato Paulista. Era a realização do meu sonho enquanto atleta profissional. Foi importante e, ao mesmo tempo, assustador, porque as pessoas não esperavam que eu pudesse, naquela idade, chegar em um clube dessa grandeza", contou.
Ao mesmo tempo em que chegava ao São Paulo e realizava um sonho, Régis já convivia com o problema das drogas. E a junção de glamour, dependência química e futebol mexeu com ele.
"Eu vinha de um processo de recuperação. O São Paulo tinha consciência do que acontecia comigo. Foi um dos fatores que na minha cabeça eu achei que iriam prejudicar. Mas de forma nenhuma eles me trataram com indiferença. Eles entendiam que meu potencial estava muito além daquilo que eu tinha apresentado em termos de problemas pessoais antes. Eles apostaram em mim, sabiam que eu poderia produzir. Para mim não foi um problema. De fato e infelizmente aconteceu, mas de forma nenhuma interferiu naquilo que eu pude produzir dentro de campo", disse.
Régis conseguiu ter boas atuações e ainda hoje recebe carinho de parte da torcida são-paulina, inclusive em suas redes sociais. Mas os bons jogos não foram suficientes para que ele conseguisse se manter na equipe. As questões pessoais falaram mais alto.
"Eu não atribuo ao São Paulo uma responsabilidade de algo que eu decidi fazer. Obviamente que foi proposto um plano de prevenção, com certeza eles fizeram isso. Mas vai muito além da questão do futebol. É uma questão pessoal, questão de saúde, envolve departamento de saúde, mas também vai muito da tomada de decisão do atleta. Em determinado momento eu não conseguia administrar toda aquela euforia, porque vivia um bom momento, especulado na seleção brasileira, com sondagens de clubes. Quando chega a um clube dessa grandeza, é preciso conscientizar o atleta de que ele pode chegar a um nível muito mais alto do que isso. Se não houver um equilíbrio emocional, acontece o que aconteceu comigo", afirmou. "[O glamour] Mexe [com a cabeça]... Não só com a minha, mas com vários atletas".
"No São Paulo havia pilares importantíssimos, como Diego Souza, Nenê, Rodrigo Caio, que foi um dos caras que contribuíram para minha ida, Bruno Alves, Ardoleda. Em 2018 estávamos cercados de jogadores experientes. Quando eu passei por essa primeira situação, foram os caras que falaram: 'Régis, vamos lá, a gente precisa de você, estamos aqui para te ajudar'. O clube também estendeu a mão para mim. Isso foi importantíssimo nessa minha primeira crise. Foram pessoas que guardo com carinho muito grande no meu coração", contou.
"Minha saída não foi da maneira como eu esperava. Acredito que qualquer outro atleta que tenha passado pelos desafios que eu passei não imaginaria sair daquela forma. O jogador de futebol não é imune aos problemas que estão propostos todos os dias. Vivemos em um país em que as pessoas estão sofrendo com diversos problemas emocionais. Naquele período eu passei por um problema muito difícil, mas eu também falo que o São Paulo sempre me deu todo suporte para que eu pudesse crescer, não só sobre o problema que eu tive, mas também na minha questão e evolução pessoal. Minha saída não foi da maneira como eu esperava, mas a maneira como as pessoas me tratam hoje, mesmo sabendo de todo problema que eu tive, para mim é um afago e me faz acreditar que fiz um bom trabalho", concluiu.
A superação
Ter saído do São Paulo com o contrato rescindido e com problemas pessoais fez com que Régis também visse portas se fecharem. Se antes vivia o glamour, ele entendeu que, após a queda, são poucos que se mantêm ao lado.
"Existe um preconceito muito grande, principalmente em relação ao problema que eu tive. Tecnicamente, óbvio, em todos lugares em que se fala do meu nome as pessoas dão ok e dizem que como atleta não há o que falar. Mas eles sempre pesam esse outro lado. É o que entristece, porque foi algo pontual. O Régis não é definido por aquilo que ele viveu, é um atleta de alto nível. Se eu não tivesse me cuidado, não teria chegado ao São Paulo, não teria chegado ao Botafogo. As pessoas me rotulam ainda por aquele momento que vivi. E eu já não sou mais aquela pessoa. Infelizmente as pessoas ainda se apegam muito ao passado", lamentou.
"Foram anos de muito aprendizado. Aprender a valorizar mais a família, aprender a valorizar mais as pessoas que estão ao seu lado. Porque, quando você chega a um nível alto, você começa a valorizar as pessoas que estão se aproximando, você entende que elas são mais importantes do que aquelas que lutaram com você no passado. Você, infelizmente, acaba se esquecendo. Estarei mentindo se não tivesse me esquecido das pessoas que um dia me estenderam a mão. Hoje eu posso dizer que aprendi isso, a valorizar as pessoas que estavam comigo no momento difícil e que estão comigo hoje também", disse.
"Acho que esse é um valor que eu tenho. As pessoas olham muito para o Régis do problema, mas eu sou um cara super humano, que gosta de ajudar as pessoas, que tem empatia com as pessoas que passaram pelo mesmo problema que eu. O futebol uma hora vai acabar. O que vai restar é a amizade, o companheirismo, as relações que você fez durante o futebol, porque, infelizmente, pós-carreira, são poucos que você tem um relacionamento. O que aprendi é valorizar o ser humano, porque um dia eu senti falta disso, então não quero que as pessoas sintam o que eu senti", completou.
Sete anos depois, o jogador consegue falar abertamente sobre tudo que passou.
"Foi uma fase da minha vida. São fases que a gente não consegue apagar. Eu entendo que tudo que passei é para abrir os olhos das pessoas, alertar os jovens atletas, que estão começando hoje, para tratar esse assunto. Porque é um assunto que envolve o ser humano, não é só o atleta de futebol. Acho que existe um tabu muito grande, não só na sociedade, mas no esporte também. Fui um 'escolhido' para falar abertamente dessa situação".
"Hoje eu tenho uma responsabilidade muito grande de falar. Quem sou eu para dar conselho aos clubes, mas acho que os departamentos psicológicos precisam ser bem ativos para trabalhar em termos de prevenção a esse tipo de problema com álcool, droga. Se as pessoas não tiverem um plano de prevenção, isso pode ser um problema, como foi um problema para mim. Eu tratava como uma diversão, e em dado momento não foi mais. Se tornou um problema, comprometeu grande parte da minha carreira. Mas o que eu posso dizer é que os clubes precisam dar essa estrutura. A gente sabe que a prevenção e educação vêm de dentro de casa, se tratando de atletas mais jovens, mas o clube tem um fator importantíssimo nessa conscientização dos atletas para que eles possam desempenhar de fato seu melhor potencial dentro do dia a dia e dos jogos".
"Cheguei a ser um dependente químico, sim. Mas, como falei, isso não modificou nenhum aspecto na minha vida pessoal. Foi uma parte da minha vida. É um assunto que temos de tocar, fez parte, está claro para todos. Mas de forma alguma isso foi um peso para mim. Entendo que é um fator de transformação na vida das pessoas".
Encarar o problema de frente foi o que fez com que o lateral conseguisse superar aquele momento da vida.
"Passei por alguns procedimentos de saúde, de tratamento, tudo sempre ligado ao esporte. Acho que o esporte é um fator transformador na vida de qualquer pessoa. De uma forma geral existe essa falta de suporte para atletas que passam por alguns problemas pessoais. Eles querem resultados imediatos. Falando do Régis, me apeguei na minha família, nas pessoas que estão comigo hoje dando um suporte, staff que tenho, para poder prosseguir, porque sabemos que isso é uma luta para o resto da vida. O futebol é o remédio para minha continuidade e minha vida profissional", contou.
"Os atletas precisam se abrir para poder entender o que passa com eles de fato. O tabu às vezes não é só externo, existe um tabu interno. As pessoas precisam se enxergar, entender o que passa com elas. É completamente normal uma pessoa passar por um problema. Não é vergonha para ninguém falar a respeito de um assunto que você viveu. Quando você supera ou quando você passa por cima disso, isso é um fator motivacional para a vida das pessoas. As pessoas até me diziam: 'Pô, Régis, por que você fala desse assunto? Não fala disso'. Mas eu preciso falar. Acho que uma pessoa que vai me ouvir, um atleta que vai me ouvir, que se identifica com isso, pode fazer uma escolha diferente dentro da sua trajetória e carreira. Acho que é válido e que os clubes precisam, sim, se abrir, falar abertamente, e próprio envolvido nessa situação precisa se abrir para entender e se prevenir, para que não aconteça o que aconteceu comigo", acrescentou.
O futuro
"Acho que o futuro era muito amplo para mim. A gente se limita a um clube de Portugal, a um clube de segunda divisão da Espanha. Mas o que me foi dito é que eu estava muito próximo da seleção brasileira, com sondagens de grandes clubes da Europa. Então, tendo em vista o Militão, que era meu companheiro de posição, nós erámos parecidos. Eu tinha um pouco mais de técnica do que ele, e ele chegou ao Real Madrid. Onde eu poderia ter chegado? Lógico que cada um na sua história, nas suas devidas proporções, mas acredito que eu teria uma história muito grande, pelo menos a seleção brasileira acho que eu teria alcançado", afirmou Régis, ao ser questionado sobre como imagina que a carreira seria se a vida não fosse feita de tantos altos e baixos.
"Eu não diria [que tenho] arrependimento, mas acho que eu poderia ter me preparado melhor para encarar esse desafio. Quando se fala em São Paulo, qual jogador que não quer vestir a camisa do maior clube do país? Hoje, aos 36 anos, eu entendo que é preciso se preparar. Eu não tinha, como eu tenho hoje, o staff que me acompanha, para falar: 'Olha, precisa se prevenir, tal pessoa vai se aproximar...'. Os perigos vêm no pacote. Vem todo glamour, a independência financeira, mas as coisas ruins também vêm. É preciso filtrar isso. Acho que isso que quero trabalhar na minha reta final de carreira, para ajudar os mais jovens a entender isso", afirmou.
Ele, inclusive, agora poderia dar um conselho ao próprio Régis de uma década atrás: "Vamos ser um pouco mais obedientes. Vamos ser menos rebeldes. Vamos escutar mais as pessoas. Vamos botar o pé no chão. Porque, quando a gente é novo, a gente acha que sabe de tudo. A gente acha que é só chegar lá, botar a camisa, comprar um carro bonito, escolher a melhor mulher. E não é. A vida não é isso. Não é isso que traz felicidade. Então eu diria para o Régis: 'Calma, seja menos empolgado'. É isso que eu quero falar nos projetos futuros que tenho de educar atletas a terem uma vida mais pé no chão, em um mundo tão capitalista que a gente vive hoje, infelizmente atingiu o futebol também".
O jogador não pode mudar o passado. Mas consegue fazer um futuro diferente.
"Meu pós-carreira é investir no agenciamento de atletas. Não me vejo como treinador, não me vejo como um gestor de clube, não me vejo envolvido diretamente com um clube. Eu quero estar envolvido com a pessoa, poder fornecer para os futuros atletas, que por ventura venham trabalhar comigo, dar para eles aquilo que eu não tive: uma instrução social, uma instrução pessoal", projetou.
A ideia é que, daqui a uma década, Régis possa falar dele próprio apenas com orgulho.
"Quero falar: 'Régis, você foi um guerreiro. Você suportou todo o processo. Você entendeu o que tinha de ser feito, se respeitou. Você permitiu se perdoar, porque eu errei, infelizmente. E hoje você está de parabéns. Hoje você é um ser humano que agrega na vida das pessoas'. Daqui a dez anos eu tenho absoluta certeza que esse vai ser o discurso, não só para mim, mas também para o meu filho. Vou falar: 'Filho, olha o que seu pai era e olha o que seu pai se tornou'. Esse é meu sonho. Tenho certeza de que não está longe de ser alcançado".

