A postura hegemônica e as diretrizes de viés imperialista da administração de Donald Trump levaram a União Europeia a uma conclusão contundente: Washington adota uma estratégia deliberada para fragmentar a unidade do bloco. A afirmação é de Kaja Kallas, Alta Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, que, em entrevista ao jornal Financial Times publicada nesta sexta-feira (13), comparou as táticas dos EUA às de adversários históricos da integração europeia — como a Rússia e a China. Segundo a diplomata, o governo norte-americano procura deliberadamente enfraquecer a coesão do continente para impor interesses bilaterais e obter vantagens sobre nações isoladas.
Unidade como estratégia de defesa
Segundo Kallas, o questionamento do apoio militar dos EUA e as pressões sobre a soberania de territórios como a Groenlândia e o Ártico são sinais claros de uma tentativa de isolar os Estados-membros. “A nossa resposta não deve ser ‘Ah, vamos tratar com [Trump] bilateralmente’, mas sim… ‘Vamos tratar com eles juntos'”, declarou a chefe da diplomacia. A vice-presidente da Comissão Europeia enfatizou que a força do bloco reside na sua integridade: “Eles não gostam que estejamos juntos porque somos potências iguais quando estamos unidos”.
Mudanças estruturais e autonomia militar
Para a diplomata, o atual distanciamento não é meramente conjuntural, mas sim uma “mudança estrutural” provocada pelo reposicionamento de Washington. Em intervenções anteriores na Agência Europeia de Defesa, Kallas já havia alertado que a Europa deixou de ser a prioridade central da política externa norte-americana. Perante este cenário de unilateralismo, a dirigente defende que a “OTAN deve tornar-se mais europeia”, reiterando a necessidade urgente de o continente ampliar a sua autonomia estratégica e os seus investimentos em defesa para reduzir a dependência tecnológica e militar dos EUA.
Pressão sobre a OTAN e soberania
A tensão escalou após documentos da Casa Branca sugerirem condicionantes ao Artigo 5.º da OTAN (defesa mútua) e o aumento da pressão para que os aliados europeus assumam custos financeiros mais elevados sob pena de abandono. Kallas reforçou que a tentativa de tratar os países europeus de forma individualizada visa desestruturar o mercado único e a influência geopolítica da União. A orientação oficial da diplomacia europeia, conforme comunicado pelo gabinete da Alta Representante, mantém que apenas uma postura conjunta poderá garantir a soberania do bloco perante as novas exigências e táticas de pressão da administração Trump.

