
As mães e avós da Praça de Maio, que buscam filhos e netos desaparecidos pela ditadura argentina, tornaram-se símbolo da luta pelos direitos humanos. | Crédito: Reprodução
Nesta terça-feira (24), a Argentina completou 50 anos do golpe militar de 1976 que instaurou uma das ditaduras mais sangrentas da América Latina. Sob o lema “Memória, Verdade e Justiça”, milhares foram às ruas em todo o país para homenagear as vítimas e reafirmar o compromisso democrático, em um momento marcado pela tensão entre a construção histórica da memória e o crescente discurso negacionista do governo de Javier Milei.
O terror de Estado: números e métodos
A ditadura cívico-militar-eclesiástica que vigorou entre 1976 e 1983 executou um plano sistemático de extermínio contra opositores políticos, sindicalistas, estudantes, artistas e cidadãos comuns. Estima-se que 30 mil pessoas foram desaparecidas, um número reconhecido pela sociedade civil, embora dados oficiais subnotificados apontem 8.600 vítimas.
O regime instalou 814 centros clandestinos de detenção em todo o território argentino, sendo a Escola de Mecânica da Armada (ESMA) o mais emblemático. Nesses locais, praticavam-se sequestros, torturas, execuções sumárias e o roubo de bebês de presas políticas — crimes classificados como lesa-humanidade e imprescritíveis.
A chamada “Guerra Suja” foi marcada pelo terror psicológico: famílias inteiras viviam sob ameaça constante, enquanto o Estado negava qualquer responsabilidade sobre os desaparecidos. A repressão não poupou nem mesmo crianças: centenas foram apropriadas ilegalmente por famílias ligadas ao regime, em um projeto deliberado de apagamento de identidades.
A construção da memória: Madres, justiça e cultura
A resistência à ditadura começou ainda durante o regime. Em 1977, um grupo de mães cujos filhos haviam sido sequestrados passou a caminhar em silêncio ao redor da Pirâmide de Mayo, na Plaza de Mayo, em Buenos Aires. Nasciam assim as Madres de Plaza de Mayo, símbolo mundial de luta por direitos humanos e justiça.
Após o retorno à democracia, em 1983, o presidente Raúl Alfonsín criou a Conadep (Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas), que produziu o relatório “Nunca Más”, documento fundador da memória oficial sobre o período. A Argentina tornou-se referência regional em justiça de transição: anulou as leis de anistia (Punto Final e Obediência Devida) em 2005 e, desde então, condenou 867 agentes por crimes de lesa-humanidade.
A memória também se consolidou no espaço urbano e na cultura. A ESMA foi transformada em complexo museológico e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade em 2023. Filmes como “Argentina, 1985” (2022) levaram a história aos cinemas do mundo, enquanto manifestações anuais no 24 de março reatualizam o compromisso coletivo com a verdade.
O revisionismo de Milei e a “memória completa”
O governo de Javier Milei, no entanto, promove uma guinada no tratamento da memória da ditadura. Em mensagem pelo 49º aniversário do golpe, o porta-voz Manuel Adorni anunciou a quebra de sigilo de documentos militares e a proposta de uma “memória completa”, que equipara crimes do Estado a ações de grupos guerrilheiros.
Para críticos, essa narrativa resgata a ultrapassada “teoria dos dois demônios”, que relativiza a violência estatal ao colocá-la em pé de igualdade com a luta armada. “O relatório ‘Nunca Más’ já afirmava que o terrorismo de Estado era ‘infinitamente pior’ porque dispunha do poder e da impunidade absolutos”, lembram especialistas.
Além do discurso, o governo tem promovido cortes em órgãos de memória e direitos humanos. O Arquivo Nacional de Memória, localizado na ESMA, perdeu pelo menos 36 de seus 103 funcionários, e espaços como o Centro Cultural Haroldo Conti enfrentam desmonte. Para organizações de direitos humanos, trata-se de um ataque institucional à preservação da verdade histórica.
Resistência civil e alerta para o futuro
Apesar do contexto adverso, a sociedade argentina segue mobilizada. Em 2026, manifestações em todo o país reafirmaram que “não podemos esquecer”, como declarou Daniel Ghigliazza, familiar de desaparecido. As Madres e Abuelas de Plaza de Mayo continuam ativas, denunciando o negacionismo e exigindo que a justiça prossiga.
O desafio atual é duplo: preservar as conquistas da memória e da justiça frente ao revisionismo oficial, e educar as novas gerações para que compreendam a ditadura não como “excesso”, mas como projeto político de extermínio. “Defender a memória é defender a democracia”, resumem manifestantes.
Ao completar meio século do golpe, a Argentina reafirma que o “Nunca Más” não é apenas um slogan, mas um compromisso ético permanente. Em tempos de ascensão global de discursos autoritários, a experiência argentina lembra que a memória é arma fundamental contra a repetição da barbárie.

