Bolívia: rebelião cerca La Paz e pede renúncia de Rodrigo Paz

Mai 20, 2026

Por Lucas Toth, no Vermelho   

Manifestantes marcham em direção a La Paz durante mobilização contra o governo Rodrigo Paz; protestos e bloqueios já se espalham por diferentes
regiões da Bolívia. Foto: Reprodução

A Bolívia vive sua maior crise política e social desde a chegada da direita ultraliberal de Rodrigo Paz ao poder. Há mais de duas semanas, marchas, bloqueios de estradas e uma greve geral impulsionada pela Central Operária Boliviana (COB), sindicatos camponeses, organizações indígenas, professores, mineiros e transportistas colocaram o país em estado de convulsão social. 

Nesta segunda-feira (18), uma marcha multitudinária desceu de El Alto até La Paz exigindo a renúncia imediata do presidente, enquanto o governo respondeu com repressão, prisões e militarização das vias de acesso à capital.

O agravamento do conflito ocorre em meio à rápida deterioração das condições econômicas do país. A retirada de subsídios aos combustíveis promovida pelo governo provocou uma explosão no custo de vida, aumento dos preços dos alimentos e escassez de diesel e gasolina. 

Setores populares acusam Paz de impor um programa de austeridade alinhado aos interesses do Fundo Monetário Internacional (FMI), das empresas transnacionais e do agronegócio, rompendo compromissos históricos do Estado plurinacional boliviano construído ao longo dos governos do Movimento ao Socialismo (MAS).

Evo acusa diretamente Washington, a DEA e o Comando Sul de coordenarem ações com o governo boliviano.

Protestos contra Rodrigo Paz entram em nova fase na Bolívia

As mobilizações, que já duram mais de duas semanas, começaram com reivindicações salariais e protestos contra o aumento do custo de vida, mas rapidamente se transformaram em um movimento nacional contra o governo de Rodrigo Paz.

A COB, a Confederação Sindical Única de Trabalhadores Camponeses da Bolívia (CSUTCB), os Ponchos Vermelhos, organizações indígenas e sindicatos urbanos passaram a exigir abertamente a queda do governo após a repressão policial e militar dos últimos dias.

As manifestações ganharam força sobretudo depois da operação realizada no sábado (16), quando forças de segurança tentaram desbloquear estradas que cercavam La Paz e El Alto. 

Os protestos mantêm o país parcialmente paralisado. Mais de 70 bloqueios de rodovias foram registrados em diferentes regiões, afetando o abastecimento de combustíveis e alimentos. Em La Paz, filas em postos de gasolina, escassez de produtos básicos e inflação acelerada ampliaram a insatisfação popular contra o governo.

A COB afirma que o governo tenta impor um pacote neoliberal que ameaça direitos históricos dos trabalhadores e abre caminho para a privatização de setores estratégicos. 

O dirigente sindical Mario Argollo declarou recentemente que “não estamos pedindo a saída deste presidente incompetente porque somos loucos; é porque eles não apresentaram soluções claras para o país”.

Ajuste econômico, “gasolinazo” e revolta popular

O principal detonador da crise foi o chamado Decreto Supremo 5503, que eliminou subsídios aos combustíveis e abriu espaço para maior participação do capital estrangeiro nos setores de mineração, energia e infraestrutura. 

A medida provocou aumentos de até 86% na gasolina e mais de 160% no diesel. O impacto foi imediato sobre os preços dos alimentos, do transporte e da cesta básica. 

Mineiros cooperativistas denunciam paralisações por falta de combustível, enquanto sindicatos urbanos afirmam que o custo de vida se tornou insustentável em poucos meses de governo.

Outro foco central da revolta é a chamada Lei 1720, apelidada por setores camponeses de “Lei Marinkovic”. rganizações indígenas e rurais afirmam que a norma favorece o agronegócio e permite transformar pequenas propriedades comunitárias em ativos financeiros sujeitos a embargo bancário, ameaçando territórios históricos do campesinato e dos povos originários.

As mobilizações revelam também o desgaste acelerado do projeto político de Rodrigo Paz. 

Eleito prometendo estabilidade, diálogo e reorganização econômica sem desmontar direitos sociais, o presidente passou a justificar o ajuste afirmando que recebeu um “país quebrado”, aproximando seu governo das recomendações de organismos multilaterais e do mercado financeiro internacional.

Governo responde com repressão e criminalização

A resposta do Executivo boliviano aprofundou ainda mais o conflito. O governo classificou os protestos como uma tentativa de “desestabilização” e autorizou grandes operações policiais e militares para desbloquear rodovias e dispersar manifestantes.

Nesta segunda-feira, a Justiça boliviana emitiu uma ordem de prisão contra Mario Argollo, secretário executivo da COB, acusado de “instigação pública ao crime”, “terrorismo” e outros delitos. 

A central sindical denunciou perseguição política e afirmou que o governo tenta silenciar a direção operária por meio da criminalização dos movimentos sociais.

Argollo respondeu afirmando que “não vão nos dobrar na luta que empreendemos” e acusou o governo de usar ações penais para intimidar lideranças populares. 

A COB também denunciou que as Forças Armadas vêm sendo abastecidas com gás lacrimogêneo e equipamentos repressivos enquanto a população enfrenta escassez e inflação.

Organizações sociais afirmam que a repressão atual lembra momentos críticos da história boliviana, especialmente os conflitos de 2003, quando protestos populares contra políticas neoliberais terminaram em massacres e na queda do então presidente Gonzalo Sánchez de Lozada.

Evo Morales denuncia plano dos EUA e teme captura

O ex-presidente Evo Morales tornou-se um dos principais focos da crise. Refugiado politicamente em seu bastião cocalero no Chapare e protegido por apoiadores, Evo denunciou publicamente um plano articulado entre os Estados Unidos e o governo boliviano para prendê-lo ou assassiná-lo.

Segundo Morales, Washington teria ordenado ao governo de Rodrigo Paz a realização de uma operação militar com apoio da DEA e do Comando Sul dos EUA. 

O líder indígena afirmou ainda que agentes norte-americanos e estruturas ligadas à repressão antidrogas passaram a operar junto às Forças Armadas bolivianas.

As denúncias surgem em meio ao temor de seus apoiadores de que Evo possa sofrer uma captura semelhante à ofensiva recente dos EUA contra Nicolás Maduro e outras lideranças latino-americanas classificadas por Washington como adversárias estratégicas.

O governo boliviano acusa Morales de incentivar os protestos e de promover um plano para “romper a ordem constitucional”. 

Evo rejeita as acusações e afirma que o Executivo tenta transformar toda mobilização social em caso de polícia ao associar sindicatos e movimentos populares ao narcotráfico.

Enquanto isso, apoiadores do ex-presidente organizam vigílias e sistemas de proteção comunitária em torno da casa de Evo no Chapare, diante do receio de uma operação militar.

Apoio dos EUA amplia tensão geopolítica

Os Estados Unidos manifestaram apoio explícito ao governo de Rodrigo Paz em meio à escalada dos protestos. O Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado afirmou apoiar os esforços oficiais para “restaurar a ordem”.

Washington afirmou apoiar os esforços oficiais para “restaurar a ordem, a paz e a estabilidade”. 

Para movimentos sociais bolivianos, porém, o posicionamento norte-americano confirma o alinhamento entre o novo governo boliviano e os interesses estratégicos dos EUA na região andina.

O presidente colombiano, Gustavo Petro, classificou o cenário como uma “insurreição popular” e se colocou à disposição para mediar a crise. Petro afirmou que a América Latina precisa ser ouvida “olhando o mundo de frente, em paz”.

Para sindicatos, organizações indígenas e setores populares, está em jogo o futuro do modelo econômico boliviano, da soberania sobre os recursos naturais e do próprio caráter plurinacional do Estado construído nas últimas décadas sob forte protagonismo popular.

 

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