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Xadrez do enfrentamento do pós-bolsonarismo

Ago 05, 2022

Por Luis Nassif, no Jornal GGN                                                                                                          

 

Peça 1 – a sub direita desorganizada

O bolsonarismo brotou dos órfãos da política, da classe média da periferia e, especialmente, das pequenas cidades, pessoas que nunca se viram participantes de nenhuma política pública, mas muito ciosas do pequeno poder que administram em seu entorno.

A cada dois anos votam para seus candidatos a vereadores, prefeitos e deputados por mera obrigação burocrática. Depois, retornam às suas rotinas e ao exercício dos seus poderes no seu pequeno mundo.

No máximo, juntam-se em torno da associação comercial da cidade ou de algum clube de serviços, muito mais como forma de status social, de auto-ajuda, do que de colaboração. E detestam tudo o que interfere em suas pequenas rotinas e na estratificação social, especialmente políticas de direitos humanos.

Quem descobriu e explorou essa maioria silenciosa, tornando-a protagonista política, através da militância digital e da violência verbal, foram as igrejas. Depois, a ultra direita entrou nas asas dos algoritmos e dos grupos de WhatsApp, propondo criar seus exércitos populares.

É um ectoplasma que continuará pairando nos céus da democracia, com ou sem Bolsonaro.

Peça 2 – a sub-elite nacional

Trata-se do clube de milionários e bilionários e uma corte sub-cosmopolita composta por funcionários de grandes empresas, algumas categorias de serviços públicos – como a Justiça.

Obedecem à influência dos meios de comunicação e dos porta-vozes do ultra-liberalismo, que são incapazes de pensar um projeto de país, como foi o caso dos pais fundadores do império americano, ou o Partido Comunista Chinês, ou ainda a social-democracia europeia.

Admiram o modo de vida americano, esperam a sorte grande de uma startup com a mesma fé de um viciado em loterias. E acreditam que a redenção do país está no fim de todas as políticas sociais.

Os mais ilustrados defendem pautas ambientais (o que é um grande avanço), ecoando as preocupações dos gurus internacionais. Mas a maioria só consegue entender o país através do Banco Central, das taxas de juros elevadas, da concentração absurda de renda, de um modelo tributário que penaliza apenas os mais pobres e do padrão Luis Roberto Barroso de iluminismo: retirem todos os direitos trabalhistas que conquistaremos o céu do desenvolvimento!

Depois de abrir caminho para o bolsonarismo, caiu-lhes a ficha de que a democracia é o único modelo que assegura seus privilégios e seu poder de influência. 

Peça 3 – a esquerda e os movimentos sociais

Para sorte da paz social, há décadas a esquerda se aglutinou em torno de Lula e dos movimentos sociais. E suas demandas foram trazidas para as arenas jurídica e política, ajudando-os a se confortar nas dobras de uma democracia mais-que-imperfeita.

É o caso do Movimento dos Sem Terra e dos Sem Teto. As invasões são planejadas em áreas destinadas à desapropriação, mas mantidas como reserva de valor por donos anacrônicos e juízes atrasados. As invasões obedecem aos princípios da Constituição e visam exclusivamente pressionar o Judiciário a cumprir a lei. 

Hoje em dia, nos conflitos no campo e nas cidades, morrem apenas sem-terra e sem-teto, quilombolas e índios, demonstrando a característica intrinsecamente pacífica desses grupos. 

O que seria do país se, além do bolsonarismo desbragado, de parte do território ocupado pelo crime organizado, do PCC às milícias de Bolsonaro, esses grupos não tivessem se abrigado na política e na Constituição, mesmo com parte do Judiciário ignorando esses princípios? Seria uma guerra civil permanente.

Mesmo assim, eram apresentados como terroristas e baderneiros pelo oportunismo político que campeou na mídia e na política e que se infiltrou até no que se imaginava ser o centro-direita civilizado, o PSDB, pelas mãos do indizível Xico Graziano.

Peça 4 – o fator Bolsonaro-Centrão

Hoje em dia, trava-se uma luta feroz entre o país cosmopolita, de uma sub-elite anacrônica, o país dos movimentos sociais e o país selvagem e terraplanista que emergiu com o bolsonarismo. 

Foi a sub-elite que colocou Bolsonaro no minarete do poder público, o Centrão no controle da política e o Exército no centro do poder civil. E, de lá, ele e seus aliados do Centrão, comandam verbas públicas, manobram orçamento secreto, garantem empregos para militares da ativa e negócios para os da reserva. E definitivamente se converteram na maior ameaça ao país desde a Independência.

Em outros tempos, havia golpes de estado sangrentos, que muitas vezes colocou o país sob o jugo de militares golpistas, mas com algum projeto de país, ainda que autoritário.

Hoje em dia, tem-se a maior batalha democrática da história do país, onde o que está em jogo não é o poder militar, mas o caos e a anarquia. 

Haverá três desafios pela frente. 

O primeiro, derrotar Bolsonaro nas eleições. 

O segundo, abafar as tentativas de golpe. 

O terceiro, de longo prazo, limpar o país do bolsonarismo, que sobreviverá com ou sem Bolsonaro.

Hoje em dia, especialmente nos rincões, a única comunidade com ação civilizatória é a dos professores da rede pública – daí a fixação do bolsonarismo na destruição da educação – e das santas casas de misericórdia.

O desafio maior será incluir os bárbaros no jogo político-institucional. E só se conseguirá com o fim do predomínio do mercado sobre as políticas públicas e o aprofundamento da democracia direta, de maneira a empoleirar cada comunidade, fazendo-a agente ativo do seu destino. Não pode uma decisão tomada na Faria Lima impactar os rincões, afetar comunidades sem a menor ideia sobre o que está ocorrendo. Essas comunidades precisam ser participantes ativos de políticas públicas relacionadas com sua atividade.

Nem se pense em assembleias populares decidindo os destinos do país,  nem em semi-presidencialismo e outras formas do gênero. O modelo mais moderno e funcional é o das conferências nacionais, dos conselhos municipais, cuja atuação deve ser estendida e melhor aproveitam, permitindo o ativismo público nas conferências municipais, a troca de experiência nas estaduais e a definição de protocolos gerais nas conferências nacionais.

Aproveitando o grande arco democrático que se delineia, há que se desenhar políticas públicas que incluam a rede de associações comerciais, os clubes de serviço e até a maçonaria – hoje em dia dominada por um padrão político-intelectual general Augusto Heleno.

Se a ideia viável é a do grande arco político, o pacto nacional, o melhor caminho serão políticas bem desenhadas que mobilizem as bases municipais, independentemente do tipo de organização na ponta – movimento social, sindicato ou associação empresarial.

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