
O cinema brasileiro entrou definitivamente para a história da 83ª edição do Globo de Ouro, realizada neste domingo (11), em Los Angeles. Pela primeira vez, o país conquistou duas estatuetas na mesma cerimônia, consolidando um dos momentos mais relevantes de sua trajetória internacional.
O longa “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho, venceu como melhor filme em língua não inglesa, enquanto Wagner Moura foi consagrado melhor ator em filme de drama, feito inédito para um brasileiro na categoria.
Apesar de não levar o prêmio principal de melhor filme de drama, vencido pelo britânico “Hamnet: A vida antes de Hamlet”, a produção nacional saiu como uma das grandes protagonistas da noite. Moura superou nomes de peso como Michael B. Jordan (“Pecadores”) e Oscar Isaac (“Frankenstein”).
Quebra de jejum e marca histórica
A vitória de “O Agente Secreto” encerra um jejum de 27 anos sem triunfos do Brasil na categoria de filme internacional, o último havia sido “Central do Brasil”, em 1999, de Walter Salles.
No ano passado, o país já havia ganhado projeção internacional com Fernanda Torres, premiada por “Ainda Estou Aqui”, mas a dobradinha deste domingo eleva o cinema brasileiro a um patamar raramente alcançado por produções sul-americanas em Hollywood.
No palco, ao receber o troféu das mãos de Minnie Driver e Orlando Bloom, Kleber Mendonça Filho saudou o público brasileiro:
“Alô, Brasil”, disse o cineasta, que destacou a parceria com seu protagonista. “As melhores coisas acontecem quando você tem um grande ator e um grande amigo. Dedico esse filme aos jovens cineastas. Esse é um momento da história muito importante para fazer filmes, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. Vamos continuar fazendo filmes”, afirmou.
Memória, ditadura e resistência
Ambientado nos anos 1970, o filme acompanha a trajetória de um professor universitário (Wagner Moura) que retorna ao Recife para reencontrar o filho caçula, sob o risco permanente da vigilância da ditadura militar.
Em seu discurso, Moura alternou inglês e português para sublinhar o peso político da obra:
“É um filme sobre memória, a falta dela e um trauma geracional. Eu acho que se um trauma pode ser passado por gerações, os valores também podem. Esse prêmio vai para quem está seguindo seus valores em momentos difíceis”, declarou.
Ao encerrar, fez uma homenagem direta ao país: “E para todo mundo no Brasil que está assistindo isso agora, viva o Brasil e a cultura brasileira”.
Corrida pelo Oscar
O triunfo no Globo de Ouro acontece em um momento decisivo da temporada de premiações. Na semana anterior, o longa já havia vencido o Critics’ Choice Awards como melhor filme internacional e agora desponta entre os favoritos para as indicações ao Oscar, que serão anunciadas em dez dias.
A trajetória internacional do projeto começou no Festival de Cannes, onde a equipe realizou um protesto cultural com apresentação de frevo na Avenida Croisette. Agora, impulsionado por uma campanha robusta nos Estados Unidos, conduzida pela distribuidora Neon, “O Agente Secreto” se consolida como a maior aposta brasileira ao Oscar de filme internacional das últimas décadas.

