
Foto: Reprodução TV Justiça
A ministra Cármen Lúcia fez um pronunciamento contundente ao votar no julgamento do caso que apura o assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, no Supremo Tribunal Federal (STF). Em tom emocionado, ela questionou a permanência da violência e cobrou uma resposta efetiva do Estado diante de crimes que, segundo afirmou, atingem não apenas as vítimas, mas toda a sociedade brasileira.
Ao iniciar seu voto, a ministra lançou uma pergunta direta sobre a repetição de tragédias semelhantes no país: “Eu me pergunto, senhoras e senhores, quantas 'Marielles' o Brasil permitirá sejam assassinadas até que se ressuscite a ideia de Justiça nesta pátria de tantas indignidades”.
A ministra revelou ainda o abalo pessoal provocado pelo processo. “Esse processo me faz mal, pela impotência do direito diante da vida dilacerada. Esse processo tem me feito muito mal, até fisicamente, em que leio e releio, vejo vídeos sobre tudo o que passou”, afirmou.
Durante o voto, Cármen Lúcia destacou o que classificou como dimensão moral do crime e criticou a brutalidade da execução. “Aprendi que se pode arrancar a alma de um ser humano sem lhe rasgar as carnes”, ponderou. Em seguida, reforçou: “Ódio desmedido, descaso humano sem limites. Esse julgamento é testemunho tímido da resposta que o direito pode dar".
Ao recordar a noite do atentado, a ministra ressaltou o alcance simbólico da violência. “Essa rajada de metralhadora riscou a noite, estilhaçou não apenas os corpos dessas pessoas, feriu o Brasil", declarou.
Ela também abordou a vulnerabilidade das mulheres, inclusive em posições de poder. “Nós, mulheres — mesmo eu branca, mesmo eu ministra — somos mais ponto de referência do que sujeito de direito [...]. Matar uma de nós é muito mais fácil. Matar fisicamente, matar moralmente, matar profissionalmente. Continua sendo", afirmou.
No mesmo contexto, mencionou a mãe da vereadora, Marinete Silva. “Dona Marinete, não ache que é só a sua filha. É mais fácil matar uma de nós do que matar um dos outros três aqui, porque se imagina que não vai acontecer nada", disse.
O Supremo tornou réus, em junho de 2024, os acusados de envolvimento no crime. Domingos, Rivaldo, Ronald e Robson Calixto permanecem presos preventivamente sob a justificativa de risco às investigações. No ano passado, Chiquinho Brazão obteve autorização para cumprir prisão domiciliar após diagnóstico de graves comorbidades.
Também foram denunciados o delegado e ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa, acusado de colaborar no planejamento do crime, e o policial militar Ronald Paulo de Alves, apontado como responsável por monitorar os deslocamentos de Marielle. O ex-assessor Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, responde sob acusação de integrar organização criminosa ao lado dos irmãos Brazão.

