Combater o "cristofascismo" é uma necessidade civilizatória

Jun 06, 2026

Por Bepe Damasco                                                                                                

 

Na década de 70, a teóloga alemã Dorothee Solle cunhou a expressão "cristofascismo" para definir a fusão do fundamentalismo cristão com práticas autoritárias e de extrema direita. Falecida em 2003, Dorothee se mostrou visionária em relação ao que aconteceria décadas depois. 

Se ainda estivesse entre nós, a estudiosa certamente se exasperaria com a utilização em larga escala da fé religiosa como instrumento de proselitismo e ação política por parte dos fascistas. A intelectual adotaria também como objeto de estudo o processo que levou expressivos contingentes da população a abraçar teses de um obscurantismo medieval. 

Não sou sociólogo e tampouco tenho formação em teologia, apenas um cidadão atento ao seu tempo. Por isso, de  forma preliminar, acho fundamental fazer uma distinção entre os evangélicos tradicionais, como batistas, luteranos, metodistas e presbiterianos, e os neopetencostais que tomaram conta das favelas e bairros populares das periferias dos grandes centros urbanos brasileiros.

Os evangélicos oriundos da reforma protestante são, em geral, conservadores nos costumes, mas se dividem quanto ao alinhamento político-ideológico., embora a maior parte deles se incline à direita.

Já as denominações neopetencostais têm sua doutrina baseada no dinheiro, professando a tal "teologia da prosperidade, uma excrescência em si, já que Cristo nasceu e morreu pobre e dedicou sua vida à redenção dos desvalidos.

Igrejas como a Assembleia de Deus e Universal do Reino de Deus, dentre outras, possuem projetos de poder político e priorizam a ocupação de espaços nos poderes da República. Com esse propósito, marcam presença notável nos meios de comunicação.

Sem cometer o erro infantil da generalização, mas o fato é que a grande maioria de seus bispos e pastores enchem as burras de dinheiro por meio da exploração da fé alheia, em geral gente humilde que tem seus parcos recursos sugados pelos mercadores da fé, na forma de pagamento de dízimos. 

Contudo, virou moda nos setores progressistas a disseminação de uma espécie de sentimento de culpa pela relação com os evangélicos. Isso se expressa no discurso segundo o qual a responsabilidade pela forte rejeição da esquerda no segmento evangélico deve-se a preconceitos e erros de abordagem dos próprios militantes e lideranças da esquerda brasileira.

Pode ser que haja pouca paciência para aturar a visão de mundo retrógada e reacionária dos evangélicos, além de sua submissão a políticos da mais baixa extração. 

Mas esse não é o cerne da questão.

Ora, se o neopetencostalismo não é solidário ao sofrimento dos pobres e miseráveis; se nega o vergonhoso racismo estrutural; se não se revolta com as injustiças, os preconceitos e as violências sofridas pelas mulheres; se menospreza a luta dos povos originários pela sobrevivência; se nenhuma luta coletiva dos trabalhadores por melhores salários e condições de trabalho lhe diz diz respeito; se desrespeita a liberdade religiosa, atacando as religiões de matriz africana; se é tolerante e conivente com os crimes praticados pela extrema direita; se rejeita a população LGBTQIA+ e se considera que criança estuprada não tem o direito de interromper a gravidez, qual seria o tipo de diálogo possível com quem professa uma crença contrária aos direitos humanos mais elementares?

Claro que não se deve fechar as portas para a conversa, mas chamo a atenção para a complexidade do problema, que não será resolvido com uma mera decisão da esquerda de se aproximar e tentar dialogar.

Esses brasileiros pobres em sua imensa maioria precisam dos programas sociais, de saúde e educação de qualidade, além de políticas de geração de emprego e renda, para que tenham uma vida digna. É gente trabalhadora e que cuida da família. 

Mas não pode haver condescendência no que se refere às causas que defendem, que merecem ser combatidas com vigor em nome das conquistas civilizatórias da humanidade. 

De resto, só um longo processo educacional de qualidade, e ao alcance de todos, que desperte o senso crítico em um número maior de pessoas, será capaz de reverter o quadro atual em que dezenas de milhões de brasileiros são levados por questões de fé religiosa a assumirem posições políticas que só pioram suas vidas. 

 

 

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